Direita ou Esquerda: o Que os Dados da Economia Brasileira Mostram | Meia Ficha

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Você já ouviu essa frase, de um lado ou do outro: “se ganhar aquele lado, a economia desanda” — ou o contrário, “se ganhar esse aqui, a economia decola”. É um discurso que circula com a mesma convicção total nos dois extremos do espectro político.

Resumo rápido

  • Dentro do MESMO campo político, resultados opostos: Lula (2003-2010) cumpriu a meta fiscal na maior parte do tempo e manteve a dívida bruta estável (~55% do PIB); Dilma (2011-2016), mesma cor política, não cumpriu a partir de 2014 e a dívida saltou quase 19 pontos do PIB em cinco anos.
  • O mesmo padrão se repete do outro lado: FHC cumpriu e superou a meta fiscal dois anos seguidos, e ainda assim a dívida líquida mais que dobrou (28%→59% do PIB) — o motivo foi o juro alto defendendo o câmbio em crises externas, não “gasto descontrolado”.
  • A variável que prevê o resultado não é o partido: é a combinação entre meta fiscal cumprida, mecanismo institucional disponível (LRF, autonomia do BC) e cenário externo favorável ou hostil.
  • O achado se repete décadas depois, do lado oposto: no mandato atual, a meta ficou dentro da banda em 2024-2025, mas a dívida bruta subiu de 74,3% para 81,9% do PIB (jun/2026) — mesmo mecanismo técnico de FHC, em governo de outro campo político.
  • A pergunta melhor que “esse lado é bom ou ruim pra economia”: qual é a meta fiscal desse governo, ela está sendo cumprida, quanto está o juro que paga a dívida, e que cenário externo ele enfrenta.

Este artigo pega seis governos brasileiros — três de esquerda, três de centro-direita — e compara cada trio entre si, com dado oficial, usando sempre os mesmos seis indicadores: PIB, inflação, Selic, desemprego, resultado fiscal e dívida pública. A conclusão não é sobre qual lado “é melhor”. É sobre uma crença que não sobrevive nem dentro do mesmo time político.

No fim, tem um achado que se repete duas vezes, em décadas diferentes, com presidentes de lados opostos do espectro — e que muda a pergunta que você devia estar fazendo sobre economia e eleição.

Aviso importante, antes de continuar. Este é um conteúdo de educação financeira sobre mecanismo econômico — como funciona meta fiscal, dívida pública, juro e inflação. Não é comentário eleitoral, não é recomendação de voto, e não existe aqui julgamento de valor sobre qual dos seis governos “foi melhor”. Os dois lados do espectro recebem o mesmo tratamento, com os mesmos seis indicadores e o mesmo rigor de fonte. Um dos seis governos comparados é o mandato atual, ainda em curso: todo número de 2026 citado neste artigo é parcial — trimestre, mês ou acumulado até a data disponível, nunca o resultado fechado do ano inteiro. Não é avaliação do governo atual, nem prognóstico de como o mandato vai terminar, nem a favor, nem contra. A opinião sobre o seu voto é inteiramente sua, e não é o assunto deste artigo.

Neste artigo

  • O mecanismo que de fato move Selic, inflação e dívida — e que não pertence a nenhum partido.
  • Mesmo lado, resultados opostos: Lula (2003-2010) x Dilma (2011-2016) x o mandato atual de Lula (2023-2026, em curso).
  • Mesmo lado, resultados opostos: Collor (1990-1992) x FHC (1995-2002) x Bolsonaro (2019-2022).
  • A variável que realmente prevê o resultado — e não é a cor do partido.
  • O achado que aparece duas vezes, em governos de lados opostos.

Todo dado deste artigo tem origem oficial (IBGE, Banco Central, Tesouro Nacional, Câmara, Senado, TCU), com a fonte exibida na tela no vídeo que acompanha este texto — se você prefere acompanhar com a conta feita no papel, ponto a ponto, ele está linkado mais adiante, com a explicação completa dos seis governos.

O mecanismo que decide sua carteira — e não pertence a nenhum partido

Existem três mecanismos técnicos na economia brasileira, e nenhum dos três nasceu vinculado a um partido: valem para qualquer governo, de qualquer sigla, de qualquer década.

Antes de comparar qualquer governo, vale entender a régua usada neste artigo.

Meta de resultado primário

Todo ano, a Lei de Diretrizes Orçamentárias fixa uma meta: quanto o governo precisa arrecadar a mais do que gasta, sem contar o pagamento de juros da dívida. Se arrecada mais do que gasta, é superávit primário; se gasta mais do que arrecada, é déficit primário. A meta é publicada com antecedência, e qualquer pessoa pode conferir depois se foi cumprida — uma régua objetiva, independente de quem está no comando.

Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF)

Sancionada em 2000, a LRF estabelece regras de gasto público para União, estados e municípios. É a partir dela que a meta de resultado primário deixa de ser um acordo pontual — como foi o acordo assinado com o FMI em 1998-99 — e passa a ser exigência legal permanente, todo ano, de qualquer governo, de qualquer partido.

Autonomia do Banco Central

Mais recente: virou lei em 2021. Antes dela, o presidente do Banco Central podia ser trocado pelo presidente da República a qualquer momento — o que, em tese, abria espaço para pressão política de curto prazo sobre a decisão de juros, de qualquer lado do espectro. Com a lei de 2021, o BC passa a ter mandato fixo de quatro anos, sem vínculo hierárquico com o governo, com objetivo definido em lei: estabilidade de preços.

Esses três mecanismos são simétricos por natureza: não escolhem lado, valem para qualquer governo, de qualquer sigla, de qualquer década. É essa régua — meta cumprida ou não, mecanismo disponível ou não, cenário externo favorável ou hostil — que organiza as comparações a seguir. Vale registrar: seja qual for o governo, a Selic definida pelo Copom é o alicerce técnico por trás do rendimento de quem tem dinheiro em Tesouro Selic — o título que acompanha essa taxa para cima e para baixo, e que, historicamente, nunca deu prejuízo.

Mesmo lado, três resultados diferentes: a esquerda

Dentro do mesmo campo político, o resultado fiscal separa os dois primeiros governos: um cumpriu a meta e manteve a dívida estável, o outro não cumpriu e viu a dívida disparar. Os três governos abaixo são do mesmo campo político. Os dois primeiros já são história fechada; o terceiro está em curso, e todo número de 2026 é sinalizado como parcial.

Lula, 1º e 2º mandatos (2003-2010)

O PIB oscilou bastante: alta de 5,76% em 2004, queda de cerca de 0,13% em 2009 (crise financeira global) e salto de 7,53% em 2010, um dos maiores da série histórica recente. A inflação (IPCA) variou entre 3,14% em 2006 e 9,30% em 2003. A Selic caiu de 16,50% (2003) para 8,75% (2009), acompanhando a inflação sob controle. O desemprego recuou de 12,3% (2003) para 6,7% (2010).

No resultado fiscal, a meta foi cumprida na maior parte do período: superávit primário médio de 2,44% do PIB entre 2003 e 2006, e em torno de 2% do PIB entre 2007 e 2010. A dívida bruta do governo geral ficou relativamente estável — 55,48% do PIB em dezembro de 2006.

Dilma (2011-2016)

Mesma cor política, mesmo arcabouço institucional disponível (a LRF já estava em vigor desde 2000). O PIB começou em 3,97% (2011), mas a partir de 2014 entrou em queda livre: 0,50% (2014), -3,55% (2015) e -3,28% (2016) — a pior recessão de dois anos consecutivos da série recente. A inflação piorou com o tempo: 6,50% (2011) para 10,67% (2015). A Selic subiu de 11% (2011) para 14,25% (2015), o espelho do IPCA.

O desemprego seguiu caindo no início do mandato — 4,9% em 2014, a menor taxa da série histórica até então — mas depois virou: 8,8% em 2015 e 10,5% em 2016, mais que dobrando em dois anos.

No fiscal, 2014 foi o primeiro déficit primário do governo central desde 1997 (R$ 20,5 bilhões). 2015 piorou muito: déficit de R$ 114,9 bilhões, cerca de 1,94% do PIB, o maior em 19 anos. Em 2016, pela primeira vez na história da LDO/LOA brasileira, a própria meta oficial foi reescrita para admitir déficit — proposta enviada ao Congresso pelo governo Dilma em março, mas recalculada e sancionada já por Michel Temer, presidente interino, depois do afastamento dela em maio daquele ano.

A dívida bruta do governo geral saiu de 51,27% do PIB (dezembro de 2011) para 69,84% do PIB (dezembro de 2016) — uma alta de quase 19 pontos percentuais em cinco anos.

Mesma cor política nos dois governos, mesmo mecanismo fiscal disponível: um cumpriu a meta na maior parte do tempo e manteve a dívida estável; o outro deixou de cumprir a partir de 2014 e viu a dívida saltar quase 20 pontos do PIB em cinco anos.

Lula atual (2023-2026 — mandato em curso, dado parcial)

Este bloco é diferente dos outros dois: o mandato não terminou. 2023, 2024 e 2025 são anos fechados e entram como histórico; todo número de 2026 aqui é parcial — um retrato do que já aconteceu até agora, não o resultado do ano.

O PIB cresceu 3,2% (2023), 3,4% (2024, a maior taxa desde 2021) e 2,3% (2025, fechado). Em 2026, o dado mais recente é +1,1% no primeiro trimestre — um trimestre, não o ano. A inflação: 4,62% (2023), 4,83% (2024) e 4,26% (2025, fechado, abaixo do teto da meta, a menor em 6 anos); o acumulado de 12 meses até junho de 2026 está em 4,64%. A Selic fechou 2023 em 11,75%, 2024 em 12,25% e 2025 em 15% (mantida por quatro reuniões seguidas, a maior desde 2006); em agosto de 2026, a decisão mais recente do Copom trouxe a Selic para 14% — a decisão mais recente disponível, não um fechamento de ano. O desemprego: 7,8% (2023), 6,6% (2024, mínima histórica da série iniciada em 2012) e 5,6% (2025, nova mínima histórica); no trimestre encerrado em junho de 2026, o parcial é 5,4%.

No fiscal: 2023 teve déficit de R$ 230,5 bilhões (cerca de 2,1% do PIB, incluindo a quitação de R$ 92 bilhões em precatórios atrasados); 2024 teve déficit de R$ 42,9 bilhões (cerca de 0,36% do PIB); 2025 teve déficit de R$ 61,7 bilhões, cerca de 0,48% do PIB, no valor cheio — mesma régua usada nos seis períodos deste artigo. Vale uma ressalva metodológica: a lei do novo arcabouço fiscal permite excluir alguns itens específicos para aferir se a meta formal foi cumprida; descontando essas exclusões, o número de 2025 cai para R$ 13 bilhões, cerca de 0,10% do PIB, dentro da banda da meta. Em 2026, o acumulado é de R$ 92,2 bilhões só no primeiro semestre, e R$ 144,1 bilhões nos últimos 12 meses até junho (cerca de 1,08% do PIB nessa janela móvel) — não o resultado fechado do ano, que só sai em janeiro de 2027.

E o dado mais sensível deste bloco: a dívida bruta do governo geral subiu de 74,3% do PIB (dezembro de 2023) para 81,9% do PIB na leitura de junho de 2026, o maior nível desde 2021 — de novo, uma leitura de um mês, não o fechamento de dezembro de 2026.

Até aqui, PIB, emprego e inflação tiveram trajetória favorável nos anos já fechados, enquanto dívida bruta e resultado primário caminharam na direção oposta. Isso não é contradição — é o tipo de tensão que o próprio mecanismo explicado acima já prevê: indicadores de atividade e indicadores fiscais podem andar em direções diferentes, e isso, por si só, não permite prognóstico sobre como o mandato vai fechar.

Mesmo lado, três resultados diferentes: o centro-direita

O mesmo exercício do outro lado do espectro revela o dado mais contraintuitivo do artigo: cumprir a meta fiscal não impede a dívida de disparar, quando o juro real está muito alto. O mesmo exercício, agora do outro lado do espectro.

Collor (1990-1992)

O governo Collor atravessou um período de hiperinflação: pico de 84,23% no mês em março de 1990, um acumulado de mais de 4.850% nos doze meses anteriores. Nesse regime — com congelamentos de preço e confisco de parte da poupança (Planos Collor I e II) — nem existe uma série de IPCA comparável ano a ano no formato usado hoje.

Ponto estrutural: o mecanismo de meta de resultado primário explicado acima não existia no governo Collor — só nasce em 1999, com o acordo assinado com o FMI. Comparar “disciplina fiscal” de Collor com qualquer governo depois de 2000 é comparar coisas estruturalmente diferentes; um dos dois nem tinha a ferramenta na mão. O problema de Collor era outro: parar a hiperinflação com choque monetário de emergência.

O PIB, nos três anos do mandato, foi de -3,10% (1990), 1,51% (1991) e -0,47% (1992). Sobre desemprego, a série oficial contínua (PNAD Contínua) não existia ainda; a estimativa disponível vem de uma reconstrução acadêmica publicada na Estudos Econômicos (SciELO): 5,13% em 1990 e 7,16% em 1992 — aproximação, não série oficial. Também não existe um índice comparável à Selic-meta de hoje para 1990-1992, porque esse instrumento só passa a existir depois.

FHC (1995-2002)

Já no mundo pós-Plano Real, com moeda estabilizada. O PIB variou de 4,42% (1995) a uma quase estagnação de 0,34% (1998, crise asiática). A inflação, já em índice comparável, caiu de 22% (1995) para 1,7% (1998), mas voltou a subir: 8,94% (1999, crise cambial) e 12,53% (2002, fim do mandato). O Copom já existia desde 1996, mas foi só em março de 1999, em meio à crise cambial, que passou a fixar oficialmente a Meta Selic — a primeira taxa fixada nesse novo formato foi de 45% ao ano, caindo rápido depois para cerca de 22% em junho daquele ano. O desemprego foi de 6,77% (1995, estimativa acadêmica) a 11,2% (2002, dado oficial do IBGE).

No fiscal, o governo assumiu, a partir do acordo com o FMI, uma meta de superávit primário de 3,10% do PIB para 1999 — e superou, fechando em 3,24%. Em 2000, a meta era 3,25%; o resultado fechou em 3,54%. Cumprida e superada nos dois anos seguidos.

E, ao mesmo tempo, a dívida líquida do setor público saiu de cerca de 28,1% do PIB (dezembro de 1994) para cerca de 59,5% do PIB (setembro de 2002) — mais que dobrou. Como isso é possível com a meta cumprida e superada? Porque a meta primária mede só a diferença entre arrecadação e gasto, sem contar os juros — e os juros, nesse período, estavam nas alturas, defendendo o câmbio fixo numa sequência de crises internacionais (México em 1994-95, Ásia em 1997, Rússia em 1998) e absorvendo o custo de reconhecer dívidas de estados que tinham sido escondidas do orçamento antes. Cumprir a meta primária não protege a dívida total do efeito bola de neve de um juro real muito alto — são duas contas diferentes.

Bolsonaro (2019-2022)

Mandato completo e encerrado, tratado aqui como dado histórico fechado, no mesmo padrão de Collor e FHC. O PIB cresceu 1,2% (2019), caiu -3,3% em 2020 (choque da pandemia, o pior resultado absoluto de queda anual da série), cresceu 4,8% (2021) e 3,0% (2022). A inflação: 4,31% (2019), 4,52% (2020), 10,06% (2021, acima do teto da meta) e 5,79% (2022, também acima do teto). A Selic caiu para 2% em 2020 (mínima histórica da série) e subiu para 9,25% (2021) e 13,75% (2022). O desemprego foi de 11,9% (2019) a 13,5% (2020, máxima da série iniciada em 2012), caindo para 9,3% (2022).

No fiscal, o mesmo mandato passou por toda a amplitude possível: déficit de R$ 95,1 bilhões em 2019 (cerca de 1,3% do PIB); o pior déficit primário da série histórica desde 1997 em 2020 — R$ 743,1 bilhões, cerca de 10% do PIB, efeito direto do auxílio emergencial e da queda de receita na pandemia; déficit de R$ 35,9 bilhões em 2021 (cerca de 0,4% do PIB, melhor resultado desde 2014); e superávit de R$ 54,1 bilhões em 2022 (cerca de 0,56% do PIB), o primeiro superávit em nove anos.

A dívida bruta seguiu a mesma montanha-russa: 74,3% do PIB em dezembro de 2019, salto para 88,8% em dezembro de 2020 (pico da série sob efeito direto da pandemia), recuo para 80,3% (2021) e 71,7% (2022). Dentro do mesmo mandato, o pior déficit da série histórica em 2020 e o primeiro superávit em nove anos em 2022 — prova, sozinha, de que “o resultado fiscal de um governo” não é um bloco fixo.

A variável que realmente prevê o resultado

Juntando as três comparações numa régua só, com duas perguntas por período — a meta fiscal foi cumprida? e o cenário externo, fora do controle de qualquer governo brasileiro, ajudou ou dificultou?

GovernoMeta fiscal cumprida?Cenário externo
Collor (1990-1992)Mecanismo nem existiaHostil — rescaldo da crise da dívida latino-americana dos anos 80
Lula 1º/2º (2003-2010)Sim, na maior parte do períodoFavorável — boom de commodities puxado pelo crescimento da China
FHC (1995-2002, a partir de 1999)Sim, cumprida e superadaHostil — sequência de crises externas (México, Ásia, Rússia)
Dilma (2011-2016)Cumprida até 2013, descumprida a partir de 2014Reverteu — fim do superciclo de commodities, desaceleração da China
Bolsonaro (2019-2022)Cumprida em 2019 e 2021-2022; flexibilizada em 2020 pelo “orçamento de guerra”O mais extremo dos seis — pandemia global
Lula atual (2023-2026, em curso)2023 acima da banda; 2024-2025 dentro da banda (com exclusões previstas em lei)Juros globais altos no pós-pandemia e tensões geopolíticas

A leitura que essa tabela sustenta: os períodos com meta cumprida — Lula 1º/2º mandato, FHC a partir de 1999, Bolsonaro em 2021-2022 e, com a ressalva de ser mandato em curso, o governo atual em 2024-2025 — cada um enfrentou algum tipo de vento contrário e ainda assim segurou o resultado dentro ou perto da meta. Os períodos sem meta cumprida ou sem mecanismo disponível — Collor, que nem tinha a ferramenta, e Dilma a partir de 2014, que tinha a ferramenta e não usou — tiveram os piores números isolados da lista. A variável que separa os seis não é a cor do partido: é o resultado fiscal medido, cruzado com o arcabouço institucional disponível e o tamanho do vento externo enfrentado.

O achado que se repete duas vezes

Se existisse mesmo um “lado disciplinado” e um “lado gastador”, essa comparação deveria caber em duas colunas fáceis de preencher. Não cabe. Dentro da esquerda, Lula cumpriu a meta na maior parte do tempo e Dilma não cumpriu a partir de 2014 — resultado oposto, mesmo time. Dentro da direita, Collor nem tinha o mecanismo, FHC cumpriu e superou, e Bolsonaro teve o pior déficit da série numa pandemia e o melhor resultado em nove anos no ano seguinte. Seis governos, seis histórias diferentes, dentro de só dois times.

E aqui está o dado mais estranho de todos, o de FHC: ele cumpriu a meta de superávit primário acordada com o FMI, dois anos seguidos, superando os dois — literalmente, “fazer o dever de casa fiscal”, na régua que qualquer manual de disciplina usa. Ainda assim, a dívida líquida do setor público mais que dobrou como proporção do PIB no mesmo governo. Não é contradição de dado nem erro de conta: “cumprir a meta de resultado primário” e “a dívida não explodir” são perguntas diferentes. A meta primária mede receita menos despesa, sem juros. A dívida total sente o efeito do juro inteiro, composto, ano após ano — e quando esse juro está muito alto, defendendo um câmbio numa sequência de crises internacionais, a dívida pode crescer rápido mesmo com o orçamento primário arrumado.

O mesmo mecanismo aparece de novo, décadas depois, do outro lado do espectro. O mandato atual de Lula cumpriu a meta fiscal dentro da banda de tolerância em 2024 e 2025 — mesma régua de “dever de casa cumprido” do exemplo de FHC. E, ao mesmo tempo, a dívida bruta subiu de 74,3% do PIB (2023) para 81,9% na leitura parcial de junho de 2026. Por quê? Pela mesma mecânica, décadas depois: a Selic está em 15% (mantida por quatro reuniões seguidas em 2025, a maior desde 2006), e um juro nesse patamar eleva o custo de rolar a dívida existente por conta própria, independentemente de o resultado primário estar dentro da meta ou não. Não é o mesmo número, não é a mesma causa exata — FHC defendia um câmbio fixo numa crise cambial; o mandato atual convive com juro global alto no pós-pandemia — mas é o mesmo mecanismo: meta cumprida no papel, dívida subindo pelo custo do juro, não por indisciplina de gasto.

Vale repetir o cuidado que abre este artigo: isso não significa que a dívida do governo atual “vai explodir como a de FHC”, nem que “está tudo bem porque já aconteceu antes”. Esse mandato não terminou, e não há, com o dado disponível hoje, como saber como ele vai fechar — nem a favor, nem contra. O que os dados oficiais mostram é que o mesmo mecanismo técnico — meta cumprida, dívida subindo pelo juro, não pelo gasto — já apareceu duas vezes na história econômica recente do Brasil, em décadas diferentes, com presidentes de lados opostos do espectro. Isso não é uma crítica escondida a nenhum dos dois. É a prova mais forte deste artigo de que o rótulo político não é a variável que prevê o seu bolso.

A pergunta melhor do que “esse lado é bom ou mau para a economia”

Da próxima vez que alguém disser “se ganhar esse lado, a economia desanda”, ou o oposto, existe uma pergunta melhor para devolver: qual é a meta fiscal desse governo, ela está sendo cumprida, quanto está o juro que paga a dívida, e que cenário externo ele está enfrentando. Essa pergunta prevê o seu bolso muito melhor do que o nome do partido.

Assista ao vídeo completo, com a fonte de cada número na tela

Tudo o que este artigo mostrou — os seis governos, os seis indicadores, a régua de meta fiscal + mecanismo + cenário externo — está na aula em vídeo que acompanha este texto, com a conta feita no papel e a fonte de cada número exibida na tela, indicador por indicador:

Se algum desses seis governos te surpreendeu, comenta lá no vídeo qual foi — e qual mecanismo (meta fiscal, LRF ou autonomia do BC) você não conhecia antes de ler isso. Deixa o like e se inscreve no canal: toda semana tem vídeo novo de educação financeira por aqui, sem promessa de ganho fácil.

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Perguntas frequentes sobre direita, esquerda e economia

Direita ou esquerda, qual lado é melhor para a economia do Brasil?

Os dados oficiais dos seis governos comparados neste artigo não sustentam essa resposta simples. Dentro do mesmo campo político, existem pares com resultados opostos entre si — Lula 1º/2º mandato x Dilma, de um lado; Collor, FHC e Bolsonaro, do outro. A variável que separa bons e maus resultados é a meta fiscal cumprida, o mecanismo institucional disponível e o cenário externo enfrentado — não o rótulo do partido.

Por que a dívida pública pode subir mesmo com a meta fiscal cumprida?

Porque a meta de resultado primário mede só a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta, sem contar os juros da dívida. Quando o juro está muito alto — defendendo um câmbio numa crise externa, por exemplo —, a dívida total cresce pelo efeito do juro composto, mesmo com o orçamento primário dentro da meta. Foi o que aconteceu com FHC (1995-2002) e, décadas depois, é o mesmo mecanismo técnico presente no mandato atual.

O que é a meta de resultado primário?

É a meta, fixada todo ano pela Lei de Diretrizes Orçamentárias, de quanto o governo deve arrecadar a mais (ou gastar a menos) do que gasta, sem contar o pagamento de juros da dívida pública. Existe desde o acordo com o FMI em 1998-99 e, com a Lei de Responsabilidade Fiscal de 2000, virou exigência legal permanente para qualquer governo.

A dívida do governo atual vai repetir o que aconteceu com FHC?

Não há como saber, e este artigo não faz essa previsão. O mandato atual não terminou, e não existe, com o dado disponível hoje, forma de saber como ele vai fechar. O que os dados oficiais mostram é que o mesmo mecanismo técnico — meta cumprida, dívida subindo pelo juro, não pelo gasto — já apareceu duas vezes na história econômica recente do Brasil, em décadas diferentes, com presidentes de lados opostos do espectro.


Este artigo é educação financeira sobre mecanismo econômico e não constitui recomendação de voto, indicação de investimento ou avaliação político-partidária de nenhum dos governos citados. Todos os números têm fonte oficial (IBGE, Banco Central, Tesouro Nacional, Câmara, Senado, TCU) ou, quando a fonte primária não cobre o período, fonte acadêmica/jornalística sinalizada como tal. Nenhum número de 2026 é apresentado como resultado fechado do ano — o mandato atual não terminou.

Prof. Junior Jú

Junior Ju

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