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Se você leu meu artigo anterior sobre investimento em valor, já sabe que a Filosofia do Meia Ficha, é encarar as ações como pedaços reais de negócios e não apenas especular com elas.
Sendo assim, nesse artigo, apresentarei um método utilizado para calcular o valor intrínseco de uma empresa, baseado no Fluxo de Caixa Descontado, do inglês Discounted Cash Flow.
Já sabemos que o preço de uma ação é a cotação que pisca na tela da sua corretora, seguindo o humor do Sr. Mercado. O valor da ação, por outro lado, é uma estimativa do que a empresa realmente vale, com base na sua capacidade de geração de caixa futuro. Afinal, compramos uma empresa, por isso.
É aqui que entra o Fluxo de Caixa Descontado (FCD), considerado por muitos analistas como a metodologia padrão para a realização do valuation de empresas. Daqui em diante, sempre que mais adequado, usarei FCD para me referir ao Fluxo de Caixa Descontado, e facilitar sua leitura, ok?
O FCD busca responder a uma pergunta intrigante e que vale milhões de reais: “quanto vale, hoje, todo o dinheiro que uma empresa é capaz de gerar no futuro?”.
Este artigo tem esse objetivo, te mostrar como usar o FCD para calcular o valor intrínseco das ações, e para isso, usaremos o Banco do Brasil (BBAS3) como um exemplo prático!
Bora lá?
O Que É o Fluxo de Caixa Descontado (FCD)?
O fluxo de caixa descontado é um método de avaliação que estima o valor de um investimento com base no que é esperado para os seus fluxos de caixa futuros.
A ideia é projetar todo o dinheiro que uma empresa gerará ao longo de sua vida e, em seguida, “trazer” isso para o chamado, valor presente. Quem está começando agora no mundo dos investimentos, carece de uma explicação fundamental.
Concorda que R$ 100,00 hoje, não comprará as mesmas coisas daqui 5 anos? Por isso que pegamos o valor daqui a 5 anos, por exemplo, e projetamos quanto ele valeria hoje (isso é o chamado trazer valor futuro ao valor presente). Esse mecanismo sempre, trará os R$ 100,00 de daqui a 5 anos, a um valor menor hoje. A mecânica básica é essa, mas fique tranquilo que explicarei tudo na sequência do artigo.
Aprofundando, o conceito por trás do FCD é o valor do dinheiro no tempo. Um real hoje vale mais do que um real amanhã. Isso acontece porque o dinheiro disponível no presente pode ser investido para render juros, aumentando seu valor ao longo do tempo (para acompanhar ou superar a inflação, por exemplo).
Portanto, para saber quanto os lucros futuros de uma empresa valem hoje, é preciso descontá-los a uma taxa que reflita o custo de oportunidade e o risco associado a esse investimento.
Descontá-los é na prática, projetar quanto ele perderia de valor de compra no futuro e aplicar uma taxa de juros que reflita esse movimento.
O FCD não é simplesmente aplicar uma fórmula, portanto. Necessitará do conhecimento do investidor para “supor” qual seria a taxa de desconto ideal. Esse é o motivo pelo qual, os gênios Warren Buffett e Charlie Munger, já criticaram publicamente o método, uma vez que o método precisa “supor” algo no futuro.
Vejamos agora a fórmula do fluxo de caixa descontado.
Fórmula Geral do Fluxo de Caixa Descontado
Embora possa parecer super complicada à primeira vista, a lógica por trás da fórmula do FCD é bastante intuitiva.
Ela objetiva encontrar a soma de todos os fluxos de caixa futuros que a empresa gerará, com cada fluxo sendo ajustado para seu valor equivalente no dia de hoje (lembra da taxa de desconto que comentei acima?).
A fórmula geral pode ser expressa da seguinte maneira :
Valor da Empresa = FCL1 / (1 + r)1 + FCL2 / (1 + r)2 + … + FCLn / (1 + r)n + Valor Terminal / (1 + r)n
Onde:
- FCLn: É o Fluxo de Caixa Livre projetado para o período n (geralmente um ano).
- r: É a taxa de desconto, que reflete o risco do investimento.
- n: É o número do período no futuro.
- Valor Terminal: É o valor estimado de todos os fluxos de caixa da empresa após o período de projeção explícito, trazido a valor presente.
Basicamente, o modelo divide a vida da empresa em duas fases: um período de projeção explícito (geralmente de 5 a 10 anos), onde se estima o fluxo de caixa ano a ano, e um período chamado de perpetuidade, capturado pelo valor terminal.
Alguns críticos ao modelo, descrevem a impossibilidade de se prever a taxa de desconto daqui a 10 anos no Brasil, pois sabemos que, a nossa curva de juros oscila bastante. Já nos EUA, existe uma certa previsibilidade na curva de juros, e por isso esse método é bastante ensinado nas escolas de investimento por lá.
Fórmulas variantes, podem ser encontradas no site do Prof. Aswath Damodaran, o qual é referência mundial no tema.
Componentes-Chave do Modelo de Fluxo de Caixa Descontado
Para usar essa fórmula, é preciso alimentar o modelo com três componentes principais: a projeção dos fluxos de caixa, a definição da taxa de desconto e o cálculo do valor residual.
Cada um desses componentes é uma peça crítica no valuation.
Projeção dos Fluxos de Caixa Livres
O Fluxo de Caixa Livre (FCL), ou Free Cash Flow to the Firm (FCFF), é a métrica mais honesta da saúde financeira de uma empresa.
Ele representa o dinheiro gerado pelas operações após a dedução de todas as despesas e investimentos necessários para manter e expandir a base de ativos (conhecidos como CAPEX, ou despesas de capital).
É o caixa que sobra e que está disponível para remunerar todos os envolvidos com a empresa: credores (através do pagamento de juros e principal da dívida) e acionistas (através de dividendos, recompra de ações, etc).
A fórmula mais comum para o seu cálculo é :
FCL = Fluxo de Caixa Operacional (FCO) − Despesas de Capital (CAPEX)
Tanto o FCO quanto o CAPEX podem ser encontrados na Demonstração de Fluxos de Caixa (DFC) da empresa.
No entanto, para instituições financeiras como o Banco do Brasil (BBAS3) que utilizarei no exemplo prático, a aplicação dessa fórmula é mais complexa.
O “CAPEX” de um banco não se refere a fábricas ou máquinas, mas sim a investimentos em ativos financeiros e à necessidade de alocação de capital regulatório.
Da mesma forma, o “Fluxo de Caixa Operacional” é a própria essência do seu negócio de intermediação financeira.
Por essa razão, analistas frequentemente optam por modelar o Fluxo de Caixa Livre para o Acionista (FCFE), que parte do Lucro Líquido e faz ajustes.
Para fins didáticos neste exemplo, utilizaremos uma abordagem simplificada, mas comum em análises rápidas: projetar o Lucro Líquido como um proxy (uma aproximação) do potencial de geração de caixa da empresa para os acionistas.
Dadas as observações, vamos seguir para os demais componentes.
Taxa de Desconto
A taxa de desconto, representada por ‘r’ na fórmula, é a taxa de retorno mínima que um investidor exige para alocar seu capital em um determinado ativo, considerando o custo de oportunidade e todos os riscos envolvidos.
A taxa mais utilizada para descontar o Fluxo de Caixa Livre da Firma (FCFF) é o Custo Médio Ponderado de Capital ou WACC.
O WACC calcula o custo médio de todas as fontes de financiamento da empresa (capital de terceiros, como dívidas, e capital próprio dos acionistas), ponderado pela proporção de cada uma na estrutura de capital, ou seja, quanto que cada uma dessas fontes de financiamento representam percentualmente sobre o todo.
A fórmula é:
WACC = (E/V) × Ke + (D/V) × Kd × (1−T)
Onde:
- E/V: Proporção do Capital Próprio (Equity) no valor total da empresa.
- D/V: Proporção da Dívida (Debt) no valor total da empresa.
- Ke: Custo do Capital Próprio (o retorno exigido pelos acionistas).
- Kd: Custo da Dívida (a taxa de juros média paga aos credores).
- T: Alíquota de impostos corporativos. O termo (1−T) reflete o benefício fiscal da dívida, já que os juros são dedutíveis do imposto de renda.
O componente mais complexo de estimar é o Custo do Capital Próprio (Ke), que geralmente é calculado pelo Modelo de Precificação de Ativos de Capital (CAPM) :
Ke = Rf + β × (Rm−Rf)
Onde:
- Rf (Taxa Livre de Risco): É o retorno de um investimento considerado “sem risco”. No Brasil, a referência mais comum são os títulos públicos federais de longo prazo, muitas vezes aproximada pela projeção da Taxa Selic. Percebeu agora, o que eu disse sobre “supor” as taxas? A Selic de hoje não será a mesma Selic no período todo (de cada ano), até chegar aos 10 anos finais do cálculo! Pior, uma Selic de 15% como está no Brasil atualmente (2025 se você veio do futuro), joga o preço da empresa no chão. Mas sigamos.
- β (Beta): Mede a volatilidade (risco sistemático) da ação em relação ao mercado como um todo. Um beta de 1,0 indica que a ação tende a se mover em linha com o mercado (ex: Ibovespa). Um beta maior que 1,0 sugere maior volatilidade, e menor que 1,0, menor volatilidade.
- Rm−Rf (Prêmio de Risco de Mercado – ERP): É o retorno adicional que os investidores exigem, em média, para investir no mercado de ações em vez de aplicar em um ativo livre de risco (Tesouro Selic, por exemplo).
O cálculo do WACC no Brasil ilustra perfeitamente como a teoria financeira global precisa ser adaptada para a realidade local.
A Taxa Livre de Risco (Rf) aqui é substancialmente mais elevada e volátil do que em mercados desenvolvidos, refletindo os riscos fiscais e inflacionários do país.
Da mesma forma, o Prêmio de Risco de Mercado (ERP) brasileiro já embute o chamado “Risco-País”, que precifica as incertezas políticas e econômicas locais.
Portanto, uma mudança na política monetária do Banco Central ou um aumento na percepção de risco fiscal em Brasília têm um impacto direto e imediato no WACC e, consequentemente, no valor calculado para todas as empresas brasileiras.
Fazer um valuation no Brasil é, intrinsecamente, fazer uma análise macroeconômica do país. Por isso, que na Filosofia Meia Ficha, não usamos o Fluxo de Caixa Descontado nas nossas avaliações, e sim os lucros do proprietário, cunhado por Warren Buffett e algumas questões que trarei na conclusão.
Mas o trabalho de um professor é mostrar como as coisas funcionam para que os alunos (no caso de vocês, meus leitores) possam tomar as próprias conclusões após aprenderem. Sigamos.
Valor Residual / Valor Terminal / Valor na Perpetuidade
Como é impossível projetar os fluxos de caixa de uma empresa para sempre, o Valor Terminal (VT) é utilizado para estimar o valor de todos os fluxos de caixa que a empresa gerará do final do período de projeção explícito em diante, ou seja, na perpetuidade.
Este componente frequentemente representa uma parcela significativa do valor total da empresa, tornando sua estimativa crucial.
O método mais comum para calcular o VT é o Modelo de Crescimento de Gordon (que merce um artigo só para ele), que assume que a empresa crescerá a uma taxa constante e sustentável para sempre. A fórmula é:
VT = FCLn x (1+g) / WACC - g
Onde:
- FCLn: O fluxo de caixa livre do último ano do período de projeção.
- g: A taxa de crescimento na perpetuidade.
- WACC: A taxa de desconto (com os riscos e características que já comentei anteriormente).
A escolha da taxa de crescimento na perpetuidade (g) é uma das premissas mais sensíveis do modelo.
Uma regra fundamental é que “g” não pode ser maior que a taxa de crescimento nominal de longo prazo da economia do país (PIB).
Se fosse, a empresa eventualmente se tornaria maior que a própria economia, o que é irracional (mas a maioria das teorias de investimento, também são rssss).
Geralmente, os analistas utilizam uma taxa próxima ou ligeiramente superior à projeção de inflação de longo prazo.
Bora agora, colocar toda essa teoria na prática e estimar o valor do Banco do Brasil (BBAS3) e ver se ele está barato ou caro!
Exemplo Prático – Fluxo de Caixa Descontado do Banco do Brasil (BBAS3)
Antes de começarmos a brincar com todas as fórmulas discutidas até aqui, primeiro, preciso fazer uma observação. Alguns valores que colocarei nas fórmulas, foram inferidos, uma vez que se torna impossível coletar todos os valores exatos. No entanto, para os valores que consegui captar no mercado, colocarei a fonte, que poderá servir para consultas futuras, e os que foram inferidos por mim, colocarei um * para indicar.
Bora lá!
Passo 1: Coleta de Premissas e Dados
- Cotação de Referência: R$ 21,21
- Número de Ações: 5.730.830.000
- Lucro Líquido (base para projeção): R$ 35,4 bilhões (últimos 12 meses, arredondado)
- Taxa Livre de Risco (Rf): 13,94% a.a. (valor atualizado)
- Prêmio de Risco de Mercado (ERP): 8,13% (dado recente da FGV)
- Beta da Ação (β): 1,05
- Estrutura de Capital: 10% Capital Próprio (E/V) e 90% Dívida (D/V) (estimativa para um banco) *
- Custo da Dívida (Kd): 11,5% a.a. (custo de captação estimado) *
- Alíquota de Impostos (T): 40% (considerando IRPJ e CSLL para bancos) *
- Crescimento na Perpetuidade (g): 4,0% a.a. *
Passo 2: Cálculo da Taxa de Desconto (WACC)
Primeiro, calculamos o Custo do Capital Próprio (Ke) usando o CAPM:
Ke = 13,94% + 1,05 × 8,13% = 22,48%
Agora, podemos calcular o WACC.
| Componente | Fórmula / Lógica | Premissa | Resultado |
|---|---|---|---|
| Taxa Livre de Risco (Rf) | Projeção da Taxa Selic de longo prazo | 13,94% | – |
| Beta (β) | Volatilidade da ação vs. mercado | 1,05 | – |
| Prêmio de Risco de Mercado (ERP) | Retorno extra exigido pelo mercado acionário | 8,13% | – |
| Custo do Capital Próprio (Ke) | Rf+β×ERP | – | 22,48% |
| Custo da Dívida (Kd) | Custo de captação do banco | 11,50% | – |
| Alíquota de Imposto (T) | Imposto de Renda e CSLL | 40,00% | – |
| % Capital Próprio (E/V) | Estrutura de capital alvo | 10,00% | – |
| % Dívida (D/V) | Estrutura de capital alvo | 90,00% | – |
| WACC | (E/V) × Ke + (D/V) × Kd × (1−T) | – | 8,46% |
Nossa taxa de desconto para trazer os fluxos de caixa futuros do Banco do Brasil a valor presente é de 8,46%.
Passo 3: Projeção dos Fluxos de Caixa e Cálculo do Valor Intrínseco
Vamos projetar o Lucro Líquido (nossa aproximação para o FCL) por 5 anos, com um crescimento inicial de 6%, desacelerando para 4% na perpetuidade.
Todos os valores apresentados para “dinheiro” estão em bilhões!
| Ano | Projeção | Lucro Líquido (R$ bi) | Fator de Desconto (a 8,46%) | Lucro Descontado (VP) (R$ bi) |
|---|---|---|---|---|
| 1 | 2026 | 37,52 | 0,922 | 34,60 |
| 2 | 2027 | 39,78 | 0,850 | 33,81 |
| 3 | 2028 | 42,16 | 0,784 | 33,05 |
| 4 | 2029 | 44,27 | 0,723 | 32,01 |
| 5 | 2030 | 46,04 | 0,666 | 30,66 |
| Soma dos VPs (Anos 1 até 5) | R$ 164,13 |
Calma que já está acabando, prometo!
Agora vamos calcular o Valor Terminal (VT) a partir do final do Ano 5 e o trazer a valor presente:
VT = (46,04 bi × (1+0,04)) / (0,0846−0,04) = R$ 1.073,58 bi
VP do VT = 1.073,58 bi / (1 + 0,0846)5 = R$ 715,30 bi
Finalmente, somamos o valor presente dos fluxos de caixa do período explícito com o valor presente do Valor Terminal (Perpetuidade) para encontrar o Valor Intrínseco Total (Equity Value):
Equity Value = R$ 164,13 bi + R$ 715,30 bi = R$ 879,43 bi
Passo 4: Preço-Alvo por Ação e Conclusão
Dividimos o Equity Value pelo número de ações para encontrar o preço-alvo:
Preço-Alvo por Ação = R$ 879.430.000.000 / 5.730.830.000 = R$ 153,45
Agora a surpresa. Este resultado está excessivamente otimista e distante da realidade de mercado e das projeções de analistas (que giram em torno de R$ 29,00 a R$ 34,00).
Isso evidencia a sensibilidade do modelo. A principal razão para a discrepância é o uso do WACC como taxa de desconto para o Lucro Líquido (que é uma métrica do acionista).
Se usarmos o Custo do Capital Próprio (Ke de 22,48%), que é a taxa correta para descontar fluxos para o acionista (FCFE), o resultado muda drasticamente.
Refazendo o cálculo com a taxa de desconto correta (Ke = 22,48%):
- VP dos Lucros (Anos 1-5) = R$ 116,47 bi
- VT = (46,04 bi × (1+0,04)) / (0,2248−0,04) = R 259,10 bi
- VP do VT = R$ 259,10 bi / (1+0,2248)5 = R$ 94,01 bi
- Equity Value = R$ 116,47 bi + R$ 94,01 bi = R$ 210,48 bi
- Preço-Alvo por Ação = R$ 210.480.000.000 / 5.730.830.000 = R$ 36,73
Interessante né?
Fiz isso para que você aprenda duas lições importantes sobre ações:
- Nenhum de nós é um gênio indomável que calcula melhor do que o mercado todo e por isso, ficará milionário do dia para a noite. Lembre-se, todos estão usando as mesmas fórmulas e devem chegar a valores parecidos (ou muito próximos).
- São tantos componentes nas fórmulas adotadas pelo mercado, que qualquer 1% aqui ou ali de diferença, gera um valor magnificamente distorcido da realidade.
Mas fique tranquilo, que no final, te conto o que realmente importa na hora de avaliar uma empresa, pelo menos, para descartar aquelas que não se encaixam na Filosofia Meia Ficha.
Vantagens e Limitações do Fluxo de Caixa Descontado
Como toda ferramenta, o FCD tem seus pontos fortes e fracos.
Vantagens do FCD
- Foco no Valor Intrínseco: A análise é baseada na capacidade da empresa de gerar caixa, um fundamento sólido, em vez de se basear em opiniões ou múltiplos de mercado que podem estar distorcidos.
- Orientado para o Futuro: O valor é derivado das expectativas de crescimento e rentabilidade, o que é mais relevante para um investimento do que apenas dados históricos. Mas lembre-se, rentabilidade passada não indica rentabilidade futura e suposição futura também não garante nada!
- Versatilidade: Permite a comparação entre diferentes tipos de projetos e investimentos, traduzindo todos para uma base comum: o valor presente líquido (VPL).
- Disciplina Analítica: A maior vantagem do FCD pode ser o próprio processo. A necessidade de projetar cada linha da demonstração financeira e justificar cada premissa (crescimento, margens, WACC, g) força o analista a realizar uma pesquisa profunda sobre a empresa, seu setor e o ambiente macroeconômico. O entendimento gerado nesse processo é, muitas vezes, mais valioso que o número final, isso posso afirmar com certeza.
Limitações do FCD
- Sensibilidade às Premissas: O resultado final é extremamente sensível a pequenas alterações nas premissas, especialmente na taxa de desconto (WACC) e na taxa de crescimento na perpetuidade (g). O ditado “garbage in, garbage out” (lixo entra, lixo sai) se aplica perfeitamente aqui.
- Dificuldade de Projeção: Estimar fluxos de caixa futuros é uma tarefa inerentemente subjetiva e difícil, especialmente para empresas jovens, em setores muito voláteis ou em processo de reestruturação. Tente projetar o FCD para uma empresa de commodities ou de tecnologia e volte aqui para me contar como foi o desafio.
- Desconsidera Fatores Qualitativos: O modelo é puramente quantitativo. Fatores como a qualidade da gestão, a força da marca, a governança corporativa ou riscos ambientais e sociais (ESG) só são incorporados se o analista conseguir traduzi-los em números, seja ajustando os fluxos de caixa ou a taxa de desconto. Esses valores meio que estão intrínsecos ao caixa gerado, mas não entram de forma explícita no cálculo. Eu posso descobrir a fórmula da Coca-Cola com precisão e criar a MF Cola… mas nunca venderei como a Coca-Cola, mesmo que tenha um produto idêntico. Fato!
Como Conduzir uma Análise de Sensibilidade do FCD
Dada a sensibilidade do FCD às premissas, nenhum analista sério confia em um único preço-alvo. A análise de sensibilidade é uma técnica crucial para testar o impacto de mudanças nas variáveis mais importantes e gerar uma faixa de valores possíveis, em vez de um único número.
Uma forma comum de fazer isso é criar uma tabela de dupla entrada, onde as linhas representam diferentes taxas de desconto e as colunas, diferentes taxas de crescimento na perpetuidade. O resultado em cada célula é o preço-alvo correspondente.
Lembrando que, para saber o preço alvo do mercado, você precisa aderir a alguma casa de Research, essa é a praia deles.
Análise de Sensibilidade do Preço-Alvo de BBAS3 Usando Ke Como Taxa de Desconto
Vamos observar agora, como pequenas variações no g e no Ke afetam o cálculo, na sequência eu comento um pouco sobre.
| g = 3,5% | g = 4,0% | g = 4,5% | g = 5,0% | |
|---|---|---|---|---|
| Ke = 21,5% | R$ 39,01 | R$ 40,33 | R$ 41,80 | R$ 43,45 |
| Ke = 22,0% | R$ 37,28 | R$ 38,42 | R$ 39,70 | R$ 41,13 |
| Ke = 22,48% | R$ 36,20 | R$ 36,73 (* valor calculado anteriormente) | R$ 38,42 | R$ 39,88 |
| Ke = 23,0% | R$ 35,12 | R$ 36,07 | R$ 37,12 | R$ 38,28 |
| Ke = 23,5% | R$ 34,16 | R$ 35,08 | R$ 36,08 | R$ 37,18 |
Considerando a tabela anterior, demonstro claramente que, mesmo dentro de uma faixa razoável de premissas, o preço-alvo para BBAS3 pode variar de R$ 34,16 a R$ 43,45.
Isso não invalida o modelo, mas, quantifica o risco e te ajuda a entender quais cenários levariam a diferentes resultados, reforçando a importância de não se apegar a um único número, mas sim a uma faixa de valores.
Vejamos agora, onde aplicar e onde não aplicar o FCD.
Quando o Fluxo de Caixa Descontado é Mais Recomendado?
O FCD é mais eficaz e confiável quando aplicado a:
- Empresas Maduras e Estáveis: Companhias com histórico longo e fluxos de caixa relativamente previsíveis, como empresas de serviços públicos (energia, saneamento), telecomunicações e consumo não cíclico. Ou seja, empresas com fluxos de caixa mais estáveis.
- Análise de Projetos de Investimento: É a ferramenta padrão para avaliar a viabilidade de grandes projetos de capital com longa vida útil.
- Fusões e Aquisições (M&A): É usado para determinar o valor fundamental de uma empresa-alvo em uma transação. Por exemplo, se eu quisesse comprar o Banco do Brasil em uma única tacada. Hoje não tenho esse dinheiro, mas um dia quem sabe!
O método é menos adequado para:
- Startups e empresas de tecnologia em hipercrescimento: Seus fluxos de caixa costumam ser negativos e o futuro é altamente incerto.
- Empresas cíclicas: Negócios ligados a commodities, como mineração e siderurgia, cujos lucros são extremamente voláteis, dificultam projeções de longo prazo.
- Empresas em dificuldades financeiras: O passado não serve de guia e o futuro é uma incógnita.
É importante destacar que o FCD não deve ser usado de forma isolada. Os melhores analistas o utilizam em conjunto com outros métodos, como a análise de múltiplos de mercado (P/L, EV/EBITDA, P/VP).
Enquanto o FCD busca o valor intrínseco (quanto a empresa deveria valer), os múltiplos fornecem uma verificação com a realidade do mercado, mostrando quanto os investidores estão pagando por empresas similares.
Considerações Finais – O que Realmente Importa
Agora que você chegou até aqui e aprendeu tudo sobre como realizar o cálculo ou o valuation de uma empresa pelo modelo de Fluxo de Caixa Descontado, você ficaria muito “brabo” se eu te contar que quase não uso isso?
Não vá me bater ainda, deixa eu explicar. Se o mercado todo está usando essa fórmula, sua chance de bater o mercado é quase nula, concorda? E por que, pessoas como Luiz Barsi (no Brasil) e Warren Buffett (no EUA) batem o mercado com regularidade? Que fórmula eles usam?
Para começo de conversa, o Barsi usa algo parecido com o método bazin e o Buffett usa as técnicas conhecidas como investimento em valor, preconizadas pelo Papa Benjamin Graham.
No final, eles circundam as seguintes questões (simplificadas aqui), para decidir comprar ou não uma ação:
- (Buffett) Essa empresa possui um caixa previsível?
- (Buffett) Essa empresa possui um negócio simples de entender?
- (Buffett) O negócio dessa empresa, embora simples, é difícil de replicar?
- (Buffett) Quem administra essa empresa é uma pessoa de caráter?
- (Buffett) As dívidas da empresa estão controladas?
- (Buffett e Barsi) O que essa empresa vende, estará no mercado daqui a 20 anos?
- (Barsi) Essa empresa é boa pagadora de dividendos?
- (Barsi) Com o valor da ação, recebo quanto de Dividend Yield?
Perceba, não fiz você passar por todos esses cálculos atoa. Minha intenção é desenvolver massa crítica, para que você possua as ferramentas necessárias para decidir, usar ou não usar, o que o mercado “vende” como a única forma de avaliar empresas.
Ufa, é isso!
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Forte abraço, Arlei Oliveira.

Perguntas Frequentes (FAQ)
Qual a diferença entre Fluxo de Caixa da Empresa (FCFF) e do Acionista (FCFE)?
O Fluxo de Caixa da Firma (FCFF), ou FCL, é o caixa gerado pela empresa que está disponível para todos os seus provedores de capital (credores e acionistas). Por isso, ele é descontado pelo WACC, que é o custo médio de todo esse capital. Já o Fluxo de Caixa do Acionista (FCFE) é o que sobra após o pagamento de todas as despesas e obrigações com os credores (juros e principal da dívida). Como é um fluxo exclusivo dos acionistas, ele deve ser descontado pelo Custo do Capital Próprio (Ke).
Posso usar o FCD para qualquer empresa?
Teoricamente, sim. Na prática, porém, o modelo é muito mais confiável para empresas maduras, com operações estáveis e fluxos de caixa previsíveis. Para startups, empresas cíclicas ou em reestruturação, as projeções são tão incertas que o resultado do FCD pode ser pouco útil e até enganoso.
Qual o maior erro ao se fazer um FCD?
O erro mais comum e perigoso é o excesso de otimismo. Isso se manifesta em projeções de crescimento de receita e margens de lucro irrealistas, e, principalmente, no uso de uma taxa de crescimento na perpetuidade (g) muito alta. Um g superior ao crescimento nominal da economia de longo prazo é matematicamente insustentável e impossível, ou a empresa valeria mais que o país, quiçá, da economia global. Concorda?
Como a inflação afeta o cálculo do FCD?
A inflação impacta o modelo de duas maneiras principais que se contrapõem. Por um lado, ela tende a inflar os fluxos de caixa nominais futuros (receitas, custos e despesas crescem com os preços). Por outro, ela eleva a taxa de desconto (WACC), pois o Banco Central geralmente aumenta a taxa livre de risco (Selic) para combatê-la. O importante é manter a consistência: ou se trabalha com projeções e taxa de desconto nominais (que incluem a inflação), ou se trabalha com ambos em termos reais (descontando a inflação de ambos). A prática mais comum é usar valores nominais.
O FCD é melhor que a análise por múltiplos?
Eles não são concorrentes, mas sim complementares. O FCD tenta encontrar o valor intrínseco e absoluto de uma empresa. A análise de múltiplos (como P/L ou EV/EBITDA) é um método de avaliação relativa (que olha a foto atual), que compara o preço da empresa com o de seus pares no mercado. Usar o FCD para ancorar a análise no valor fundamental e os múltiplos para verificar como o mercado está precificando o setor oferece uma visão muito mais robusta e completa.






