Essa semana chegaram várias perguntas nos comentários. Sobre corretora, sobre como alocar R$90.000, sobre quantos ativos ter na carteira.
Mas uma pergunta específica me deixou parado por um tempo.
Alguém escreveu, nas palavras dela: “Alguém acredita em investimentos do governo? Mais fácil em Papai Noel.”
Eu entendo de onde vem essa desconfiança. E a resposta que eu dei — com os bancos provavelmente me detestando por isso — está no vídeo completo. Mas antes de chegar lá, deixa eu responder as outras perguntas. Porque elas também importam. E com certeza uma delas é a sua dúvida agora.
Como escolher corretora (sem cair em armadilha)
A primeira pergunta veio do Alexandre: ele só tem conta no banco e não sabe por onde começar.
Quando você pesquisa “qual a melhor corretora” no Google, os primeiros resultados são artigos patrocinados das próprias corretoras dizendo que elas são as melhores. Se você ler as cinco primeiras, vai chegar à conclusão que todas são as melhores.
Então para de procurar a corretora perfeita. Ela não existe.
O que existe é uma estratégia de corretoras — e a que eu uso é simples:
Tenha pelo menos duas grandes corretoras mais a do seu banco principal. As grandes têm mais variedade de renda fixa, mais estabilidade e não vão fechar as portas da noite pro dia. Adiciona a isso a corretora do seu próprio banco — não porque é a melhor, mas porque quando você precisa de velocidade, o dinheiro cai direto na sua conta corrente sem transferência.
Na hora de escolher, avalia quatro critérios: taxas (custódia zero em renda fixa já é padrão), oferta de produtos (variedade de emissores de CDB, LCI, LCA), plataforma (testa antes de colocar dinheiro — o que é simples pra mim pode ser complicado pra você) e atendimento (tenta tirar uma dúvida e mede a velocidade de resposta, porque o dia que você precisar de urgência não é hora de descobrir que cai numa ura automática).
Uma alocação prática: 50% na corretora que você considera melhor, 30% na segunda, 20% na terceira.
Tenho R$90.000 para investir. O que faço?
Essa pergunta veio do Nivaldo, que já tem R$40.000 num CDB de 103% do CDI e quer saber onde alocar o restante.
Antes de responder, preciso ser honesto: a forma como a pergunta foi feita já tem um erro dentro dela.
Porque o número da rentabilidade — 103% do CDI — não me diz absolutamente nada sem três informações sobre quem está investindo.
Primeira: sua situação financeira atual. Você tem 24 meses de liquidez garantidos? Tem dívidas caras rolando? Porque se tem, a resposta correta é quitar as dívidas antes de qualquer alocação. Não existe investimento que bata a rentabilidade de quitar uma dívida cara.
Segunda: seu conhecimento sobre o produto. Você sabe quem é o emissor desse CDB? Qual o rating dele? Esse CDB tem liquidez diária ou só no vencimento? Porque se você precisar do dinheiro no meio do caminho e ele estiver travado, o 103% do CDI não vale de nada.
Terceira: seus objetivos. Esse dinheiro é para emergência, para comprar imóvel em 10 anos ou para aposentadoria? O produto certo muda completamente dependendo do objetivo.
E sempre, sempre verifique o FGC: o limite de proteção é R$250 mil por CPF por conglomerado financeiro — não por banco individualmente. Veja a lista em fgc.org.br/instituicoes-associadas-e-conglomerados.
No vídeo eu aplico esses três critérios ao caso específico do Nivaldo, número por número.
Quantos ativos você realmente precisa?
Essa pergunta do @investidormindset é a que eu mais recebo. E a resposta honesta — a única resposta que um investidor sério pode dar — é: depende.
Eu sei que você não queria ouvir isso. Eu também não queria quando comecei.
Mas o número ideal de ativos é uma consequência de quatro fatores:
1. Tamanho da carteira. Quem tem R$10.000 e quem tem R$1 milhão não têm a mesma lógica de alocação. Com R$10.000, dois ou três ativos bem escolhidos já é o suficiente.
2. Seus objetivos de vida. Faculdade do filho daqui a oito anos, carro daqui a cinco, casa própria — cada objetivo tem prazo e instrumento diferente. Escreve numa folha: o que você quer, o valor, o prazo. Organiza por importância. Aí você aloca do mais urgente pro menos urgente.
3. Horizonte de prazo. Quando você vai precisar desse dinheiro? Isso define quanto de liquidez você precisa manter — e liquidez limita os ativos disponíveis.
4. Seu conhecimento sobre cada instrumento. Esse é o mais importante e o menos falado.
Eu já tive 42 ações e 20 fundos imobiliários ao mesmo tempo. Quando veio a crise de 2015, minha carteira caiu quase 40% em três ou quatro meses. O pior não foi a queda — foi que eu não conseguia nem acompanhar o que estava acontecendo. Tinha ativo demais para pensar em cada um com profundidade.
Hoje tenho três ações. Três empresas que eu entendo de verdade. E durmo muito melhor.
O número ideal não é o que maximiza diversificação. É o número que você consegue acompanhar com profundidade real.
No vídeo eu mostro como apliquei isso na prática, incluindo o que mudou na minha carteira depois da crise de 2015.
Tesouro Direto PODE CONFIAR? A resposta que os bancos não querem que você veja
Aqui está o ponto central desse vídeo.
Em 2009, eu participei de um teste oficial do TSE — um concurso público onde 32 especialistas em segurança tentaram quebrar a segurança das urnas eletrônicas. Fui um deles. Fiquei em terceiro lugar.
Conto isso não para me gabar. Conto porque aprendi algo importante nesse processo: existe diferença entre um sistema com falhas (que podem ser corrigidas) e uma fraude estrutural (que manipula resultados por design).
O Tesouro Direto não é uma fraude estrutural. E a prova está nos próprios bancos.
Deixa eu te explicar o float bancário — o mecanismo que os bancos usam para ser remunerados todas as noites com o seu dinheiro, de forma completamente legal.
Quando você deposita dinheiro no banco, ele não fica parado. O banco calcula, pelo seu padrão de consumo, quanto você vai sacar no mês. Com esse cálculo, ele sabe quanto de excedente tem disponível. Esse excedente — que pode chegar a trilhões de reais somando todos os bancões — ele investe nos títulos públicos federais: os mesmos títulos do Tesouro Direto.
Um banco com R$900 bilhões investidos no Tesouro Selic ganha, à taxa diária atual, cerca de R$476 milhões por dia. É assim que o Itaú fecha o ano com R$34, R$35 bilhões de lucro.
A analogia: é como você deixar seu guarda-chuva num depósito. O depósito aluga o guarda-chuva para quem está na chuva enquanto você não precisa. Quando você quer de volta, ele devolve. Mas o lucro do aluguel ficou com ele.
Agora pensa: se os bancos — os caras mais ligeiros do Brasil, os que ganham mais dinheiro — confiam que o governo vai devolver o dinheiro quando precisam sacar, você também pode confiar.
A diferença é que você pode fazer o mesmo diretamente, sem precisar do banco no meio. Quando você compra Tesouro Selic pela sua corretora, você corta o intermediário e fica com o rendimento que antes ficava com o banco.
Isso não é fraude do governo. É o governo oferecendo uma alternativa direta.
Antes de fechar
Essa aula cobriu muita coisa: como escolher corretora, como avaliar uma alocação de R$90.000 sem olhar só para rentabilidade, por que o número de ativos não tem resposta fixa e por que o Tesouro Direto não é fraude — mas o que os bancos fazem com ele deveria te incomodar.
O que eu não consigo reproduzir aqui no texto: o cálculo ao vivo do float bancário que fiz na tela, os números reais rodando na calculadora em tempo real, e o momento em que a conta fecha na sua frente e você entende pela primeira vez por que o Itaú lucra tanto.
Se você só vai assistir um vídeo sobre Tesouro Direto na sua vida, que seja esse.
Deus abençoe seus investimentos. Te vejo na próxima aula.
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