No rendimento, é empate. O Tesouro Selic paga a Selic Over, o CDB a 100% do CDI paga o CDI, e Selic Over e CDI são praticamente o mesmo número. Em seis meses, numa aplicação de até R$ 10 mil, os dois entregam exatamente o mesmo líquido. A diferença que importa não está no quanto rende — está no que acontece se o banco do seu CDB quebrar.
Resumo rápido
- No bruto, empatam de verdade. O Tesouro Selic acompanha a Selic Over, o CDB a 100% do CDI acompanha o CDI, e Selic Over ≈ CDI. Mesma tabela de Imposto de Renda (22,5% até 180 dias), imposto só no resgate, sem come-cotas nos dois.
- A “Selic” do Copom não é o que o Tesouro Selic rende. O que o Tesouro Selic paga é a Selic Over, a taxa que roda de verdade no mercado — não a Selic Meta anunciada nas reuniões.
- A única diferença estrutural é a taxa de custódia da B3: 0,20% ao ano, isenta até R$ 10 mil no Tesouro Selic, cobrada uma vez só, no resgate (mudou em dezembro de 2024).
- A conta de 180 dias (régua de aproximadamente 13,65% ao ano no momento da publicação): R$ 5.000 → empate exato, R$ 264,47 líquidos dos dois lados. R$ 50.000 → CDB 100% do CDI rende R$ 2.644,69 e Tesouro Selic rende R$ 2.604,69 — diferença de R$ 40,00, que é exatamente a custódia.
- O dinheiro que se perde de verdade não está em escolher entre os dois bons. Está em aceitar um CDB que paga menos de 100% do CDI ou que vem com pegadinha (carência, valor mínimo, deságio na saída). Um CDB a 90% do CDI custa de cerca de R$ 26 a cerca de R$ 264 em só seis meses.
- A diferença que decide: se o banco do seu CDB quebrar, o FGC devolve o dinheiro (até R$ 250 mil por CPF, por instituição), mas leva de um a dois meses e o rendimento para na data da liquidação. O Tesouro Selic é dívida do próprio governo (risco soberano) e resgata em D+0.
As taxas de Selic, CDI e custódia citadas aqui são as do momento da publicação deste artigo. Antes de fechar a sua conta, confira o CDI vigente no site do Banco Central e o preço do título no site do Tesouro Direto.
No rendimento, é empate (e por quê)
A pergunta do título não tem vencedor. O CDB é você emprestando dinheiro pro banco; o Tesouro Selic é você emprestando dinheiro pro governo. Parecem bicho de sete cabeças, mas a régua dos dois é a mesma.
O erro de leitura mais comum é achar que “100% do CDI” e “Tesouro Selic” são réguas diferentes. Não são. E o segundo erro é confundir qual “Selic” está em jogo.
Selic Meta x Selic Over x CDI: a régua que engana
A Selic tem duas caras.
Tem a Selic Meta: o número que o Copom anuncia nas reuniões. É a meta de política monetária, o número de jornal. Não é o que o Tesouro Selic rende.
E tem a Selic Over: a taxa média que roda de verdade nas operações de um dia lastreadas em título público, todo santo dia. Historicamente ela fica um tiquinho abaixo da Meta. É essa, a Over, que o Tesouro Selic paga, acumulada dia após dia.
E o CDI? É a taxa que os bancos usam pra emprestar dinheiro entre eles, também de um dia pro outro. O CDI anda colado na Selic Over — a diferença entre os dois é migalha (entenda a relação CDI x Selic).
Perceba o que isso significa: “100% do CDI” no CDB e o que o Tesouro Selic paga são, na prática, a mesma régua. No bruto, empate — não “quase”, empate.
Imposto: igual pros dois
Os dois pagam a mesma tabela regressiva de Imposto de Renda, que só cai com o tempo:
| Prazo do resgate | Alíquota de IR sobre o rendimento |
|---|---|
| até 180 dias | 22,5% |
| 181 a 360 dias | 20,0% |
| 361 a 720 dias | 17,5% |
| acima de 720 dias | 15,0% |
O imposto morde só o que rendeu, nunca o que você aplicou — o governo é tipo sócio que só aparece na hora do lucro. E ele é retido na fonte: a instituição desconta no resgate, você não recolhe nada.
Mais duas coisas iguais nos dois: não tem come-cotas (aquele adiantamento de imposto de maio e novembro que só existe em fundos) e o IOF zera depois de 30 dias — numa aplicação de seis meses, ele não entra na conta.
“Então tanto faz?” Quase. Falta uma taxinha que só um dos dois paga.
A única diferença estrutural: a custódia da B3
O Tesouro Direto tem uma taxa que o CDB não tem: a custódia da B3. É um aluguel — a bolsa cobra pra guardar o seu título lá dentro. São 0,20% ao ano sobre o valor guardado (Tesouro Nacional e B3).
O CDB não tem essa taxa. Ponto pro CDB — mas segura, porque o Tesouro Selic tem duas defesas.
Isento até R$ 10 mil no Tesouro Selic
Desde 2020, o Tesouro Selic é isento de custódia para valores de até R$ 10.000 por CPF (InfoMoney). Passou de R$ 10 mil, a taxa de 0,20% incide só sobre o que exceder. Se você tem R$ 50 mil no Tesouro Selic, a B3 cobra em cima de R$ 40 mil — os dez primeiros mil são de graça. Essa faixa isenta vale só para o Tesouro Selic; Prefixado e IPCA+ pagam sobre o valor cheio.
A custódia sai uma vez, no resgate
Mudou em dezembro de 2024: a custódia deixou de ser cobrada todo semestre (Agência Brasil). Agora é uma mordida só, proporcional ao tempo que o dinheiro ficou lá, debitada na hora do resgate. Não é “a B3 te sangra todo mês” — é um pedágio na saída.
E a taxa da corretora? A maioria zerou a taxa de agente de custódia do Tesouro Direto. Escolhendo uma corretora que não cobra, a custódia da B3 (0,20%) é a única que sobra — e é inescapável.
A conta de 6 meses no papel
Regras do jogo, escritas no topo da folha:
- 180 dias corridos (resgate no limite dos seis meses) → IR de 22,5%.
- IOF = 0 (passou de 30 dias).
- Taxas paradas no período, pra facilitar — é conta de padeiro: rendimento do semestre = taxa anual ÷ 2.
- Régua bruta dos dois: aproximadamente 13,65% ao ano (o CDI na data desta publicação — confira o valor atual no site do Banco Central) → 6,825% no semestre. É o mesmo número pro Tesouro Selic (Selic Over) e pro CDB a 100% do CDI.
- Corretora com taxa de agente de custódia zerada. Custódia da B3: 0,20% ao ano (≈ 0,10% no semestre), só sobre o que passa de R$ 10 mil.
R$ 5.000: empate cravado
| R$ 5.000 · 6 meses | Tesouro Selic | CDB 100% do CDI |
|---|---|---|
| Rendimento bruto (6,825%) | R$ 341,25 | R$ 341,25 |
| IR (22,5% do rendimento) | − R$ 76,78 | − R$ 76,78 |
| Custódia da B3 | R$ 0,00 (isento até R$ 10 mil) | não tem |
| Líquido no bolso | R$ 264,47 | R$ 264,47 |
Não é “quase igual”. É o mesmo número dos dois lados. Escolher no cara ou coroa dá na mesma — no dia, um ágio pequeno no título do Tesouro pode virar alguns centavos pra um lado ou pro outro, e só.
R$ 50.000: o CDB ganha por R$ 40 (que é a custódia)
| R$ 50.000 · 6 meses | Tesouro Selic | CDB 100% do CDI |
|---|---|---|
| Rendimento bruto (6,825%) | R$ 3.412,50 | R$ 3.412,50 |
| IR (22,5% do rendimento) | − R$ 767,81 | − R$ 767,81 |
| Custódia da B3 (0,10% sobre R$ 40 mil) | − R$ 40,00 | não tem |
| Líquido no bolso | R$ 2.604,69 | R$ 2.644,69 |
O CDB ganha. Por R$ 40,00. E esses R$ 40,00 são a custódia da B3 sobre os R$ 40 mil que passam da isenção — nada mais separa os dois. Acima de R$ 10 mil, a única vantagem do CDB 100% do CDI limpo sobre o Tesouro Selic é essa taxinha.
Se você veio atrás do pulo do gato, ele não está nessa escolha. Está na próxima.
O CDB de araque: é aqui que o dinheiro some
O erro que custa dinheiro de verdade não é escolher errado entre os dois bons. É aceitar o CDB ruim achando que “100% é tudo igual”.
Hoje até bancão anuncia CDB de liquidez diária a 100% do CDI. Mas muitos ainda pagam menos que isso — e quando aparece o “100%”, quase sempre vem pegadinha junto. Abre o app do seu banco e confere o seu.
As três pegadinhas do “100% do CDI”
1. Carência. O dinheiro fica preso por 30, 90, 180 dias. Você pede pra sacar e não sai. Numa reserva de emergência, isso é tiro no pé.
2. Valor mínimo. A taxa cheia só vale se você aplicar R$ 5 mil, R$ 10 mil, R$ 50 mil de uma vez. Botou menos, cai a taxa.
3. CDB com vencimento lá na frente. Pra sair antes do prazo, você tem que vender o título pra outra pessoa, no mercado secundário, pelo preço do dia — a marcação a mercado. Se o juro subiu depois que você comprou, você vende com deságio: recebe menos do que aplicou. E pode nem achar comprador (Exame). Reserva de emergência com deságio é guarda-chuva que abre depois da chuva.
Quanto custa cair num CDB fraco
Pegue um CDB a 90% do CDI — exemplo pra você ver o buraco, não é cotação:
| 6 meses | R$ 5.000 | R$ 50.000 |
|---|---|---|
| CDB / Tesouro Selic a 100% da régua (líquido) | R$ 264,47 | ~R$ 2.645 / R$ 2.605 |
| CDB a 90% do CDI (líquido) | R$ 238,03 | R$ 2.380,22 |
| Quanto você deixou na mesa | ~R$ 26 | ~R$ 264 |
R$ 264 num semestre. Quase sete vezes a diferença entre os dois bons em R$ 50 mil. É aqui que mora o dinheiro — não em “Tesouro Selic contra CDB”, e sim em não deixar a grana num CDB de araque.
A diferença que decide: e se o banco quebrar?
Agora a diferença que não aparece em nenhuma conta. Os dois são seguros — mas não do mesmo jeito.
O CDB tem o FGC, um fundo que devolve o seu dinheiro em até R$ 250 mil por CPF, por instituição, se o banco quebrar. Devolve — mas não na hora.
Quando o banco entra em liquidação, o seu rendimento para naquele dia e o FGC leva, no geral, de um a dois meses pra te pagar. O FGC devolve o principal e o rendimento até a data da liquidação, mas nada além disso — o tempo de fila é dinheiro parado rendendo zero.
Faz a conta: uma reserva de seis meses, com um a dois meses dela travada, rendendo nada, e você sem poder encostar no dinheiro — bem quando a emergência costuma bater. Reserva que só chega em dois meses não é reserva de emergência.
O Tesouro Selic não tem esse filme. É dívida do próprio governo — risco soberano, o menor risco de crédito do país. Você pede o resgate e cai no mesmo dia, se for dia útil e antes das 13h. Pra o Tesouro não te pagar, o Brasil inteiro teria que quebrar antes — e aí o seu CDB seria o menor dos seus problemas.
Essa é a diferença de verdade entre os dois. Não é o rendimento. É o susto.
Então, qual escolher? Responda duas perguntas
1. É dinheiro que você pode precisar a qualquer hora, sem aviso? Se é, Tesouro Selic. Sem susto de fila, sem custódia até R$ 10 mil, resgate no mesmo dia.
2. Se for CDB, é de banco sólido, paga 100% do CDI ou mais e não tem carência? Se sim, tanto faz — os dois empatam (e acima de R$ 10 mil o CDB leva a custódia de vantagem). Se tem pegadinha, ou o banco é mequetrefe, foge.
O veredito deste artigo não é Tesouro Selic e não é CDB. É isto: “100% do CDI” não te diz nada sozinho. Tem CDB que promete 100% e paga 90. Tem CDB que promete 100% e prende o seu dinheiro. E tem CDB que promete 100% e some com ele por um mês se o banco quebrar. A conta no papel é o que separa o “100%” de verdade do “100%” de araque.
Assista à aula completa (cálculo na tela, passo a passo)
Neste artigo você viu a lógica e as tabelas. No vídeo, essa conta inteira é feita à mão, no papel, com a fonte de cada taxa aberta na tela e os valores em reais do jeito que a ficha cai:
Assista: “COMPAREI: CDB 100% do CDI ou TESOURO SELIC | QUAL RENDE MAIS DINHEIRO?”
Essa conta de meia folha — líquido contra líquido, cada taxa no lugar — é a mesma que a gente usa dentro do GDTD pra montar uma Carteira de Renda Fixa Completa: a reserva de emergência numa ferramenta, o dinheiro do carro do ano que vem em outra, a aposentadoria em outra — cada objetivo no produto certo, com a conta provando, não no achismo do gerente. Se você quer parar de decidir no escuro e montar a sua com cabeça própria, é isso que o método ensina.
Antes de fechar qualquer conta, simule os dois cenários com o CDI de hoje. E se quiser o panorama de todos os produtos antes de comparar, tem o guia completo de CDB, LCI, LCA e RDB.
Perguntas frequentes
CDB ou Tesouro Selic para reserva de emergência?
Para reserva de emergência, o Tesouro Selic tem duas vantagens práticas: resgate no mesmo dia (D+0) e ausência de risco de banco — se um banco quebra, o FGC devolve o dinheiro do CDB, mas leva de um a dois meses. Um CDB de liquidez diária, de banco sólido, a 100% do CDI e sem carência também serve e rende praticamente igual. O que não serve para reserva é CDB com carência, com vencimento longo ou de banco pequeno demais.
CDB a 100% do CDI e Tesouro Selic rendem igual?
No bruto, sim. O Tesouro Selic acompanha a Selic Over, o CDB a 100% do CDI acompanha o CDI, e as duas taxas andam praticamente juntas. Em seis meses, para valores de até R$ 10 mil, o líquido é idêntico. Acima de R$ 10 mil, o CDB fica um pouco à frente porque o Tesouro Selic paga a taxa de custódia da B3 sobre o que exceder a isenção — R$ 40 em R$ 50 mil no semestre.
CDB a 100% do CDI vale a pena?
Vale, desde que seja 100% do CDI de verdade (muitos anunciam 100% e pagam menos), com liquidez diária, sem carência e de um banco sólido. Nesse caso ele empata com o Tesouro Selic e, acima de R$ 10 mil, rende um pouco mais. O que não vale a pena é um CDB abaixo de 100% do CDI: um a 90% custa de cerca de R$ 26 (em R$ 5 mil) a cerca de R$ 264 (em R$ 50 mil) em apenas seis meses.
O que é Selic Over e Selic Meta?
A Selic Meta é a taxa-alvo que o Copom anuncia nas reuniões — é um número de política monetária. A Selic Over é a taxa média efetiva das operações de um dia com título público, a que roda de verdade no mercado. Ela costuma ficar um pouco abaixo da Meta. O Tesouro Selic rende a Selic Over, não a Meta — e a Selic Over é praticamente igual ao CDI.
Quanto tempo o FGC demora para pagar?
Na maioria dos casos, de um a dois meses após a decretação da liquidação do banco, depois de o FGC receber a lista de credores. Nesse período o dinheiro fica indisponível e o rendimento para na data da liquidação — o FGC devolve o principal mais o que rendeu até ali, e nada além disso.
O Tesouro Selic tem taxa de custódia?
Tem: 0,20% ao ano cobrada pela B3. Mas o Tesouro Selic é isento dessa taxa para valores de até R$ 10 mil por CPF; acima disso, os 0,20% incidem só sobre o que passar de R$ 10 mil. Desde dezembro de 2024 a cobrança não é mais semestral — é feita uma vez, no resgate, proporcional ao tempo aplicado.
Este artigo é educação financeira, não recomendação personalizada de investimento. CDB e Tesouro Selic são categorias de produtos, e os cenários (CDB a 100% do CDI, CDB a 90% do CDI, “banco grande”, “corretora”) são exemplos ilustrativos, não cotações. Nenhuma taxa aqui é promessa de rentabilidade: os valores de Selic, CDI, custódia e IR são os vigentes no momento da publicação e mudam com o tempo. A cobertura do FGC e o risco soberano do Tesouro são descritos como fato, não como garantia de que algum investimento “é seguro, pode aplicar”. Confira os números atualizados nas fontes oficiais e avalie seu próprio perfil, prazo e objetivos antes de decidir.

