Tesouro Direto Negativo: Perdi Dinheiro? Entenda a Conta

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Você comprou Tesouro Direto num dia, no outro abriu o aplicativo da corretora para ver quanto tinha rendido e o saldo estava negativo. O coração gela, e a pergunta vem na hora: eu perdi dinheiro?

Eu já fiz exatamente isso. Comprei, corri para olhar no dia seguinte e estava no vermelho. Me achei burro, achei que tinha feito algo errado e fui perguntar para um amigo, que, em vez de explicar, tirou sarro da minha cara. Foi aí que eu fui estudar e descobri que existe uma conta por trás do vermelho. Quando você entende essa conta, o susto acaba.

Começo pela resposta curta, porque sei que você chegou aqui preocupado: boa parte desse saldo negativo não é perda de verdade, e ela só vira perda de verdade se você vender naquele momento. O número que o aplicativo mostra é quanto o Tesouro Direto pagaria para comprar o seu título de volta se você decidisse vender agora, e não o que você “perdeu”.

Neste artigo você vai ver:

  • por que o saldo aparece negativo logo depois da compra (o “pedágio” que quase ninguém explica);
  • a conta que dá o preço de um título que vale R$ 1.000 no vencimento;
  • por que o preço cai quando a taxa sobe, e se dá para ganhar com isso;
  • quais títulos balançam mais e quais balançam menos (e onde fica a reserva de emergência);
  • o que sai do seu bolso: custódia, imposto de renda e IOF;
  • o que fazer se o seu já está negativo.

Aviso sobre os números: as taxas e os preços deste artigo são os do dia em que o vídeo foi gravado (data-base de 23/10/2026, 13h03, salvo onde indicado). Eles mudam todo dia. Aprenda a conta, não decore o número. Tudo aqui é educação financeira, não recomendação de investimento.

Assista ao vídeo completo: a conta feita na tela, passo a passo

No vídeo, cada fonte é aberta na tela e a conta do preço é feita na planilha, do começo ao fim. Aqui você tem o resumo de cada parte.

Se preferir ler, segue o guia completo.

Por que o meu Tesouro Direto está negativo? Eu perdi dinheiro?

O saldo vermelho tem duas fontes. A primeira você vê neste capítulo (o pedágio de comprar e vender). A segunda é a marcação a mercado, que aparece no capítulo 3.

O primeiro ponto: todos os títulos do Tesouro, com exceção de apenas um, já nascem com um pedágio ligado no momento da compra. Para mostrar, vou usar o Tesouro Prefixado 2032 como exemplo. “Prefixado” quer dizer que, no momento em que você compra, já sabe a taxa que vai receber. E “2032” quer dizer que, no dia 1º de janeiro de 2032, você recebe na conta o valor investido mais os juros combinados.

Todo título do Tesouro tem dois preços ao mesmo tempo: o de compra (o que você paga para entrar) e o de venda (o que o Tesouro paga para recomprar o seu título se você quiser sair). No dia da gravação, o Prefixado 2032 estava assim:

Site do Tesouro Direto: Prefixado 2032 com taxa e preço de compra (12,89% a R$ 535,52) e de venda (13,01% a R$ 532,60), na mesma hora
Fonte: Tesouro Direto, mesma hora, mesmo título. Compra: 12,89% ao ano, R$ 535,52. Venda: 13,01% ao ano, R$ 532,60.

Cada título é vendido ao preço de compra e “recomprado” pelo preço de venda. A diferença é de R$ 2,92 por título. Em termos percentuais do preço, são -0,55%. Se você tivesse aplicado R$ 8.000 nesse título, a diferença seria de -R$ 43,62 logo de cara:

Planilha "Pedágio do primeiro dia": comprar x vender o mesmo título, com a diferença em preço e em R$ 8.000
Planilha do vídeo: o pedágio do primeiro dia, por título e em R$ 8.000 aplicados.

Isso é taxa da corretora? Não: é o spread

A diferença não é taxa da corretora. O nome técnico, que está nos documentos oficiais do Tesouro Nacional, é spread: a diferença entre o que você paga para comprar e o que recebe se vender o título naquele momento.

Pense numa casa de câmbio. Ela vende o dólar para você por um preço. Se você voltar na hora e quiser vender aquele mesmo dólar de volta, ela compra por um preço menor, e a diferença fica com ela. No Tesouro é a mesma coisa: na hora de investir é um preço, na hora de resgatar é outro.

Slide "Igual casa de câmbio": investir R$ 535,52, resgatar R$ 532,60, diferença de -R$ 2,92 por título
Igual casa de câmbio: o mesmo título, um preço para entrar e outro para sair.

Por que o susto só aparece no dia seguinte

A compra só é liquidada no próximo dia útil, e o título só aparece na sua carteira às 18h desse dia. Quando ele aparece, já está sendo avaliado pelo preço de venda. Por isso você toma o susto: está vendo, na tela, a conta do pedágio.

O tamanho do susto depende do prazo

Nos tesouros prefixados e IPCA+ (o IPCA+ paga uma taxa fixa mais a correção da inflação), o spread é sempre de 0,12 ponto percentual na taxa entre compra e venda. No Tesouro Selic é de 0,01. Mas o 0,12 na taxa vira um estrago de tamanhos diferentes no preço, conforme o prazo:

Slide "Mesmo pedágio, tamanho diferente": pedágio de cada título em % e em R$ 8.000, do Prefixado 2029 ao Selic 2031
Fonte: Tesouro Direto, taxas e preços de investir × resgatar, data-base 23/10/2026 13h03. Em R$ 8.000: Prefixado 2029 -R$ 18,36; Prefixado 2032 -R$ 43,62; IPCA+ 2050 -R$ 210,30; Renda+ 2065 -R$ 403,55; Selic 2031 -R$ 3,45.

Perceba: a taxa do pedágio é a mesma, mas quanto mais longo o vencimento, maior o estrago em percentual e em reais no aplicativo (o Renda+ 2065, usado para aposentadoria, chegou a -5,04%).

E isso é só um pedacinho do vermelho. O outro pedacinho vem da marcação a mercado, e para entendê-lo você precisa saber como o preço do título é calculado.

Quanto vale hoje um título que vale R$ 1.000 no vencimento?

Todo título prefixado promete a mesma coisa: pagar R$ 1.000 no dia do vencimento, para cada unidade comprada. O preço que você paga hoje por essa unidade é o PU, o Preço Unitário.

No exemplo do Prefixado 2032, o PU de compra do dia era R$ 535,52. Para chegar a R$ 1.000 em 1º de janeiro de 2032, o dinheiro precisa crescer cerca de 87% em 5,15 anos. Isso só acontece com uma taxa de 12,89% ao ano:

Planilha "Quanto tempo o preço de hoje leva para virar R$ 1.000": R$ 535,52 a R$ 1.000 em 5,15 anos a 12,89%
Planilha do vídeo: de R$ 535,52 a R$ 1.000 em 5,15 anos, a 12,89% ao ano.

Você pode estar pensando: “12,89% vezes 5,15 anos não dá 87%”. Dá menos, porque nossa cabeça pensa em juros simples. No Tesouro valem os juros compostos: os juros vão se acumulando em cima do que já foi acumulado, e é assim que 12,89% ao ano chegam aos cerca de 87% necessários.

O atalho: a fórmula do preço

Existe um atalho para calcular esse preço, e ele é mais simples do que parece: o preço de hoje é R$ 1.000 divididos por (1 + taxa) elevado à quantidade de dias úteis até o vencimento dividida por 252 (os dias úteis de um ano bancário).

Slide "A conta do preço": preço = 1.000 ÷ (1 + taxa) elevado a dias úteis ÷ 252
A conta do preço: 1.000 ÷ (1 + taxa) ^ (dias úteis ÷ 252).

Até 1º de janeiro de 2032 são 1.298 dias úteis (1.298 ÷ 252 dá os 5,15 anos). Colocando 12,89% na fórmula, o resultado é os R$ 535,52. E se você colocar a taxa de venda do Tesouro (13,01%), com os mesmos dias úteis, sai o preço de venda: R$ 532,60. É a diferencinha vermelha do aplicativo.

Testei também no Prefixado 2029: taxa de 12,77% e 545 dias úteis dão R$ 771,11. Na planilha, a fórmula bate com o preço do Tesouro até o centavo:

Planilha "A fórmula do Tesouro bate com o preço de referência": R$ 535,52, R$ 532,60, R$ 771,11 e R$ 769,34, com diferença de R$ 0,00
Planilha do vídeo: o preço pela fórmula é igual ao preço de referência do Tesouro Direto (23/10/2026, 13h03). Diferença: R$ 0,00.

Viu só? Não era um bicho de sete cabeças. Agora você sabe por que o valor de compra e o de venda são diferentes. A próxima pergunta é: o que acontece com esse preço se a taxa mudar?

Por que o preço cai quando a taxa sobe?

Pense comigo: você compra um título a 10% ao ano. No dia seguinte, o Tesouro passa a vender um título igualzinho, só que a 15%. Alguém compraria o seu pelo mesmo preço que você pagou? Nem a sua tia. Para alguém querer o seu, ele precisa ficar mais barato, até equiparar os 15%.

A lógica é simples: os R$ 1.000 do vencimento são sempre os mesmos. Se a taxa muda, a única variável que sobra para se ajustar é o preço. Esse ajuste do preço, todo dia, conforme as taxas do mercado, é a marcação a mercado: o aplicativo mostra o tempo todo quanto o Tesouro pagaria pelo seu título, de acordo com o “humor” das taxas.

Na planilha, no Prefixado 2032, a 10% o preço seria R$ 612,06; se a taxa fosse a 15%, R$ 486,80 (-20,47%). Esse exemplo é um exagero de propósito, só para mostrar o mecanismo:

Planilha "Taxa sobe, preço cai (e o prazo amplifica)": exagero Pré 2032 de 10% para 15% (-20,47%) e alta de 1 ponto nos Prefixados 2029 e 2032
Planilha do vídeo: o exagero de 10% para 15% (hipótese) e a alta de 1 ponto percentual em dois prefixados.

O que acontece na vida real: 1 ponto percentual

Uma mexida de 1 ponto percentual na taxa acontece em praticamente toda semana do ano. Se a taxa do Prefixado 2032 sai de 12,89% para 13,89%, o preço cai de R$ 535,52 para R$ 511,74, e o aplicativo mostra o título desvalorizado em -4,44%:

Slide "Mesma alta de 1 ponto na taxa": Prefixado 2032, taxa de 12,89% para 13,89%, preço de R$ 535,52 para R$ 511,74 (-4,44%)
A mesma alta de 1 ponto na taxa, no Prefixado 2032: preço de R$ 535,52 para R$ 511,74, ou -4,44%.

No Prefixado 2029, a mesma alta de 1 ponto (de 12,77% para 13,77%) derruba o preço de R$ 771,11 para R$ 756,53, ou -1,89%. O título mais longo caiu 2,35 vezes mais que o mais curto. É a regra: quanto maior o prazo, mais o preço oscila.

Mas só perde quem vende no meio do caminho

Se você ficar com o título até o vencimento, essa queda no meio do caminho não vira perda. O preço de mercado e o preço da taxa que você contratou se encontram exatamente na data de vencimento, e ali o título vale R$ 1.000.

Ilustração (esquema, sem dados): "Só perde se vender no meio" — curva do preço x caminho real até o vencimento
Ilustração, sem dados reais: o preço do mercado balança no caminho, mas chega no mesmo ponto do preço da taxa contratada.

O gráfico do próprio Tesouro, que eu mostro no vídeo (retirado do material oficial), diz isso: a linha azul é o preço que o título teria se a sua taxa ficasse parada; a vermelha é o preço do mercado, que reflete o humor de cada dia. Se o humor balança, a taxa de mercado balança, mas a sua taxa continua igual. No fim, as duas chegam exatamente no mesmo lugar (antes de descontar imposto, custódia e o resto, que você vê no capítulo 6).

Slide "O gráfico do próprio Tesouro": preço x taxa do Prefixado, 2012 a 2014, do documento oficial do Tesouro
Gráfico do material oficial do Tesouro: o preço de mercado oscila no caminho e converge para o preço da taxa contratada.

Você só realiza a perda se vender justamente no momento em que o valor de mercado está diferente do valor teórico do título.

Dá para ganhar com a marcação a mercado?

Se o preço cai quando a taxa sobe, o contrário também vale: se a taxa cair, o preço sobe. Então, sim, dá. Na planilha, se o Prefixado 2032 tem taxa de 12,89% e ela cai para 11,89%, o preço sobe de R$ 535,52 para R$ 560,64: uma valorização de cerca de 4,69%, apenas pela mudança da taxa. Perceba que não é linear: a taxa caiu 1 ponto, mas o título subiu quase 4,7%.

A semana real que foi e voltou

Peguei uma semana real, com dados da ANBIMA (associação independente que ajuda a regular o mercado financeiro e publica todo dia os preços dos títulos públicos), de 14 a 22 de outubro de 2026:

Slide "A semana real: foi e voltou": Pré 2032, Pré 2029, IPCA+ 2050 e Selic 2029 em 14, 19 e 22/10, com dados da ANBIMA
Fonte: ANBIMA, mercado secundário de títulos públicos (taxa indicativa e PU), arquivos de 14, 19 e 22/10/2026. Taxas e preços daquela semana.
  • Prefixado 2032 (LTN, Letras do Tesouro Nacional): de 14 a 19/10 a taxa foi de 12,78% para 13,05% e o título caiu -1,09%. De 19 a 22/10 a taxa voltou para 12,92% e o título subiu +0,77%.
  • Prefixado 2029: -0,38% e depois +0,22%.
  • IPCA+ 2050: -0,90% e depois +2,76%.
  • Tesouro Selic: +0,16% nos dois períodos. Ele não sofre a marcação a mercado como os outros, porque corrige o valor todo dia.

Então eu devo vender quando sobe?

Não. Pensa comigo: o preço foi e voltou na mesma semana. Quem vendeu na queda travou o prejuízo, porque vendeu mais barato do que pagou. E quem vendeu na subida teve que pagar o pedágio de novo para recomprar o título e, dependendo do caso, pagar imposto de renda (22,5% se a operação foi antes de 180 dias) e IOF (se foi dentro de 30 dias). Os custos estão explicados no capítulo 6.

De onde veio o ganho grande de verdade

O ganho grande veio de outra coisa: o ciclo de juros. A ANBIMA mede grupos de títulos em índices. Em 2023, o índice dos prefixados com prazo acima de 1 ano rendeu 18,52%, contra 13,25% do índice do Tesouro Selic. No primeiro semestre de 2025, foram 12,89% contra 6,55%.

Slide "O ganho veio do ciclo de juros": prefixados longos x Tesouro Selic em 2023 (18,52% x 13,25%) e no 1º semestre de 2025 (12,89% x 6,55%)
Fonte: ANBIMA, comunicados de 10/01/2024 (ano de 2023) e de 04/07/2025 (1º semestre de 2025). O que aconteceu, não é previsão.

Quem tinha prefixado comprado mais caro ganhou preço quando os juros desceram. Isso é o que aconteceu, não uma previsão: ninguém avisa o dia da virada, nem eu, nem o gerente, nem o presidente do Copom. Por isso ficar olhando as taxas todo dia também não é uma boa saída. Resultado com marcação a mercado é consequência de uma boa alocação, não de sorte para vender no dia em que a taxa caiu.

Quais títulos oscilam e quais não? E a reserva de emergência?

São três tipos de título e três comportamentos.

O mais calmo: Tesouro Selic. A marcação a mercado mexe muito pouco nele, e ele ainda corrige o valor todo dia. Com a Selic Over (a taxa que o mercado pratica de verdade) a 13,65% ao ano, ele rende algo próximo de 0,05% ao dia útil. Esse rendimento diário absorve os tremores pequenos da marcação a mercado.

Isso quer dizer que nunca fica no vermelho? Em investimento a gente nunca pode dizer nunca. Em setembro de 2020, o Tesouro Selic 2025 fechou o mês com -0,46%, a primeira vez desde maio de 2002. A Selic estava tão baixa que o rendimento do dia era uma migalha, e um tremor pequeno comeu o resultado. Com a Selic na casa dos 13%, é pouco provável que isso se repita, mas o “nunca” não entra aqui.

Slide de fonte InfoMoney: Tesouro Selic 2025 em setembro de 2020, -0,46% no mês, "a primeira vez desde maio de 2002"
Fonte: InfoMoney, publicado em 02/10/2020. Dado de setembro de 2020.

Os prefixados e os IPCA+: oscilam conforme o prazo. Veja o efeito de uma taxa que sobe de 13% para 14%, conforme a distância do vencimento:

Planilha "Quanto mais longe do vencimento, mais o preço balança": de 13% para 14% em 2, 5 e 10 anos, e o rendimento diário do Selic
Planilha do vídeo: taxa de 13% para 14%. Em 2 anos o preço varia -1,75%; em 5 anos, -4,31%; em 10 anos, -8,43%.

Quem compra título de vencimento muito longo está aceitando que o preço vai balançar bastante até chegar lá. Isso não é bom nem ruim por si só: depende do perfil do investidor. Quem tem dinheiro que não vai precisar tão cedo pode esperar até o vencimento e receber exatamente o combinado. Quem pode precisar do dinheiro antes deve preferir vencimentos menores.

E a reserva de emergência?

Se você acha que vai precisar do dinheiro no meio do caminho, o Tesouro Selic é o lugar mais adequado. A própria página do Tesouro o descreve como “ideal para reserva de emergência”, com saque “a qualquer momento”.

Slide de fonte do Tesouro Selic: "Ideal para reserva de emergência" e "o saque pode ser feito a qualquer momento"
Fonte: página do Tesouro Selic no Tesouro Direto (acesso em 23/10/2026).

E há um título novo: o Tesouro Reserva. Segundo a página oficial, ele rende 100% da Selic, funciona 24 horas por dia e aceita investimento a partir de R$ 1,00. Foi lançado em 11/05/2026, em parceria com o Banco do Brasil, e a página diz que “em breve” estará em outras instituições. A B3 informou, no lançamento, que ele não terá marcação a mercado: você não verá o saldo vermelho logo no segundo dia.

Slide de fonte do Tesouro Reserva: 100% da Selic, 24h, R$ 1,00; "não terá marcação a mercado"
Fonte: Tesouro Direto (página oficial do Tesouro Reserva) e B3 (notícia de 11/05/2026), acesso em 23/10/2026.

Quer ver a comparação entre os dois para a reserva? Veja também: Tesouro Reserva ou Tesouro Selic: qual usar na reserva?.

Quanto custa? IOF, custódia e imposto

Se você precisar usar o dinheiro antes do vencimento, três coisas saem do seu bolso: taxa de custódia da B3, imposto de renda e IOF.

Planilha "O que sai do bolso": custódia B3 de 0,20% (R$ 16,00 em R$ 8.000), tabela de IR, IOF por dia e mínimo para comprar
Planilha do vídeo: custódia, imposto de renda e IOF, para R$ 8.000 aplicados. Regras vigentes em 23/10/2026.

Taxa de custódia: o ponto que muita gente explica errado

A custódia é a taxa que a B3 cobra para guardar o registro do seu título: 0,20% ao ano sobre o valor dos títulos. Em R$ 8.000 num prefixado, são R$ 16,00 por ano, ou cerca de R$ 0,04 por dia.

Agora a parte que falta na maioria dos materiais que encontrei: até 31/12/2024, a B3 cobrava a custódia todo janeiro e todo julho. Depois dessa data, a cobrança passou a ser feita apenas quando você movimenta: num resgate total (no vencimento) ou num resgate parcial (se você vender parte do título). O curioso é que a página de perguntas frequentes da B3 ainda traz a regra antiga:

Slide de fonte da B3 (perguntas frequentes): custódia de 0,20% ao ano, cobrada semestralmente, e mínimo de R$ 30, ainda com a regra antiga
Fonte: perguntas frequentes da B3 (página sem data, acesso em 24/10/2026). O trecho literal ainda cita a cobrança semestral e o mínimo de R$ 30,00, regras antigas.

Por isso, o valor mínimo para comprar também mudou: ele não é mais R$ 30,00, e sim 1% do preço do título. Se o Prefixado 2032 está a R$ 535,52, dá para investir a partir de R$ 5,35.

A custódia varia por título: alguns cobram 0,10%, outros 0,15% e outros 0,20%.

Imposto de renda: só sobre o rendimento

O imposto de renda é o nosso sócio eterno. Ele incide sobre o rendimento, nunca sobre o valor aplicado, e segue a tabela regressiva:

Prazo até a vendaAlíquota
Até 180 dias22,5%
De 181 a 360 dias20%
De 361 a 720 dias17,5%
Acima de 720 dias15%
Slide "Imposto de renda": 22,5% até 180 dias, 20%, 17,5% e 15% acima de 720 dias
Tabela regressiva do imposto de renda. Tire um print para consultar na hora do resgate.

Cuidado com artigos (muitos escritos por inteligência artificial) que falam de uma alíquota fixa de 17,5% para todos os investimentos. Isso foi uma proposta que não vingou no Congresso. Por enquanto, vale a tabela acima.

Se você comprou ontem, precisou vender hoje e o título perdeu valor com o spread e a marcação, você está no prejuízo e não paga imposto de renda nem IOF, mas paga a custódia proporcional.

IOF: só nos primeiros 30 dias

O IOF só cobra se você sair dentro dos primeiros 30 dias. Ele começa em 96% do rendimento no dia 1 e vai caindo um pouco a cada dia, até zerar no dia 30. Também incide só sobre o rendimento, não sobre o principal.

O que fazer se o seu Tesouro Direto já está negativo?

Se você chegou até aqui porque o seu investimento está negativo, você já sabe muito mais do que quem riu da sua cara. O saldo negativo vem de duas fontes:

  1. o spread (a diferença entre o que você pagou para comprar e o que o mercado paga para você vender naquele momento);
  2. alguma mudança na taxa, que faz o título perder valor pela marcação a mercado.

Agora vamos ver os dois caminhos, com um caso simulado.

Caminho 1: segurar até o vencimento

Premissas: R$ 8.000 no Prefixado 2029, com PU de compra de R$ 770,85 em 15/10/2026 (liquidação em 16/10/2026), vencimento em 01/01/2029 e imposto de renda de 15% (mais de 720 dias).

Planilha "Segurar até o vencimento: Prefixado 2029": R$ 8.000, bruto de R$ 10.378,15, líquido de R$ 9.980,75 e ganho líquido de 24,76%
Planilha do vídeo: segurar o Prefixado 2029 até o vencimento (insumos de 15/10/2026). É uma simulação com a taxa daquele dia, não uma promessa de retorno.
  • Valor bruto no vencimento: R$ 10.378,15 (10,378 títulos de R$ 1.000), ou R$ 2.378,15 de rendimento em 808 dias corridos.
  • Imposto de renda de 15%: R$ 356,72.
  • Custódia da B3 no período: cerca de R$ 40,68.
  • Líquido no vencimento: R$ 9.980,75. Ganho líquido sobre o valor aplicado: 24,76%.

O spread não entra nessa conta: no vencimento você não vende para o Tesouro, você recebe o que foi combinado.

Caminho 2: vender antes (30 dias depois, com a taxa 1 ponto acima)

Premissas: os mesmos R$ 8.000 e a mesma compra; 30 dias depois, a taxa de venda estava 1 ponto percentual acima (de 12,76% para 13,76%), faltando 531 dias úteis para o vencimento.

Planilha "Vender antes: 30 dias depois, taxa 1 ponto acima": resultado de -R$ 90,71 bruto e -R$ 92,02 em relação ao valor aplicado
Planilha do vídeo: venda 30 dias depois, com a taxa 1 ponto acima. Imposto de renda e IOF zerados porque não houve ganho.
  • PU de venda: R$ 762,11; valor bruto da venda: R$ 7.909,29, ou seja, -R$ 90,71.
  • Imposto de renda e IOF: zero, porque não houve rendimento.
  • Custódia proporcional: cerca de R$ 1,32.
  • Líquido que cai na conta: R$ 7.907,98, uma diferença de -R$ 92,02 sobre o aplicado.

A lição: dinheiro de curto prazo não se coloca em prefixado nem em IPCA+. Para isso, serve o Tesouro Selic, o Tesouro Reserva ou um CDB de liquidez diária de banco grande.

Antes de clicar em “vender”, olhe 4 coisas

Se mesmo assim você precisar vender:

  1. O preço de venda de hoje contra o que você pagou (o valor em reais, não só o percentual).
  2. Quanto tempo falta até o vencimento, e se esse dinheiro vai fazer falta antes (se for, ele não deveria estar no prefixado).
  3. A taxa de quando você investiu contra a taxa de hoje: se a de hoje está mais alta, o preço caiu.
  4. O custo da saída: a custódia sai de qualquer jeito; o imposto de renda só se houver lucro; o IOF só se você resgatar em até 30 dias.
Slide "Antes de vender, olhe 4 coisas": preço de venda x o que pagou, tempo até o vencimento, taxa contratada x de hoje, custo da saída
Os quatro pontos para olhar antes de apertar o botão de vender.

Agora você consegue dar uma aula para aquele amigo que riu quando você perguntou. Quando abrir o aplicativo e ver o Tesouro Direto negativo, vai saber dizer se foi o spread, a mudança na taxa ou a marcação a mercado. E lembre-se: só perde valor quem vende na hora errada. Se levar até o vencimento, você recebe direitinho o que foi combinado.

Perguntas frequentes sobre Tesouro Direto negativo

Por que o meu Tesouro Direto está negativo no dia seguinte à compra?

Porque o título aparece na carteira já avaliado pelo preço de venda. A diferença entre o preço de compra e o de venda é o spread: no exemplo do Prefixado 2032, R$ 2,92 por título (-0,55%), ou -R$ 43,62 em R$ 8.000. Soma-se a isso qualquer mudança da taxa desde a compra (marcação a mercado).

Eu perdi dinheiro se o Tesouro Direto está negativo?

Não necessariamente. O saldo mostra quanto o Tesouro pagaria para recomprar o seu título hoje. A perda só se concretiza se você vender naquele momento. Se segurar até o vencimento, o título paga o combinado (R$ 1.000 por unidade, nos prefixados), antes de custódia e imposto.

O Tesouro Selic também fica negativo?

Muito menos, e raramente. Ele corrige o valor todo dia, e esse rendimento absorve os tremores da marcação a mercado. Mas já aconteceu: em setembro de 2020, o Tesouro Selic 2025 fechou o mês com -0,46%, com a Selic muito baixa.

O que é marcação a mercado no Tesouro Prefixado?

É o ajuste diário do preço do título conforme as taxas do mercado. Se a taxa sobe, o preço cai; se a taxa cai, o preço sobe. Como o título sempre vale R$ 1.000 no vencimento, a única variável que muda é o preço de hoje.

Dá para ganhar dinheiro com a marcação a mercado?

Dá: se a taxa cai 1 ponto, o Prefixado 2032 do exemplo sobe cerca de 4,69%. Mas o ganho grande veio do ciclo de juros, e ninguém avisa o dia da virada. Vender na alta cobra o pedágio de novo, mais imposto e IOF, conforme o caso.

Qual o preço unitário (PU) de um título prefixado?

O PU é o preço de uma unidade do título, que promete R$ 1.000 no vencimento. É calculado por R$ 1.000 ÷ (1 + taxa) elevado a (dias úteis ÷ 252). No exemplo, a 12,89%, o Prefixado 2032 valia R$ 535,52.

Tesouro Prefixado ou Selic: qual escolher?

Depende do prazo do dinheiro. Para dinheiro que pode ser necessário no meio do caminho (reserva de emergência), o Tesouro Selic ou o Tesouro Reserva. Para dinheiro que você pode deixar até o vencimento, o prefixado paga o que foi combinado, aceitando que o preço balance no caminho.

Quanto custa sair do Tesouro Direto antes do vencimento?

Custódia da B3 (0,20% ao ano, em R$ 8.000 são R$ 16,00 por ano), imposto de renda sobre o rendimento (22,5% a 15%, conforme o prazo) e IOF só nos primeiros 30 dias. Se não houver lucro, não há imposto de renda nem IOF.

Este artigo é conteúdo de educação financeira. Não constitui recomendação personalizada de investimento, nem promessa ou garantia de rentabilidade. As simulações usam taxas e preços de datas específicas (outubro de 2026), que mudam todo dia, e os resultados mostrados valem para aquelas premissas. Confira sempre as taxas e as regras vigentes no Tesouro Direto e na B3 antes de decidir. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura.

Prof. Junior Jú

Junior Ju

Escada GDTD

Aprender renda fixa de verdade — do zero, no seu ritmo, sem se sentir perdido no caminho.

Eu te pego sabendo nada e te solto investindo sozinho — um degrau de cada vez, na ordem que ninguém nunca te deu.

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