LCA vale a pena? O que é, riscos, FGC, carência e a conta

Conteúdo

Eu sei que você já buscou bastante sobre LCA, e quase todo vídeo fala a mesma coisa: a LCA é isenta de imposto de renda. Pra maior parte das pessoas, isso basta pra decidir se investe ou não. Nesta aula não.

Resumo rápido

  • LCA é um título de renda fixa emitido por banco: quem te deve é o banco emissor, não a corretora que vendeu.
  • A isenção de imposto de renda é só um critério, e não o primeiro: antes olhe o emissor (Basileia, rating e balanço), a carência e a rentabilidade líquida.
  • O FGC cobre até R$ 250 mil por CPF, por conglomerado: o pagamento não é automático e a rentabilidade para quando a liquidação é decretada.
  • Carência mínima: 6 meses na LCA pós e pré-fixada e 12 meses na LCA IPCA+.
  • Compare cada formato com o Tesouro equivalente: para dois anos, abaixo de 85% do CDI a chance de uma rentabilidade ruim é muito grande.

Aqui eu vou te mostrar o que é risco de crédito, o que é o risco da carência (o seu dinheiro ficar parado e você não conseguir sacar) e uma mudança que teve no ano passado e que pouca gente comentou: o tempo mínimo que você precisa ficar dentro da LCA. Dependendo do caso, você pode até perder dinheiro ou rentabilidade por causa disso.

Existem três formatos de rentabilidade na LCA: pós-fixada, pré-fixada e IPCA+. Pra cada uma eu vou usar um par do Tesouro Direto: a pós-fixada contra o Tesouro Selic, a pré-fixada contra o Tesouro Prefixado e a IPCA+ contra o Tesouro IPCA+.

Quando terminar de ler (ou de assistir), você vai saber mais sobre renda fixa do que 95% das pessoas que já investem. E na próxima vez que o gerente do banco falar “toma, essa LCA é isenta”, você vai poder responder: “me dá mais um cafezinho, que eu preciso te contar algumas coisas”.

Assista à aula completa

Neste artigo está o conteúdo da aula escrito. No vídeo você vê as contas sendo feitas na tela, no simulador, passo a passo.

Isenção de imposto é só um critério, e não é o primeiro

Geralmente, pra LCA a gente usa um único critério pra decidir se investe ou não: “é isenta, não vou pagar imposto, ponto final”. Eu também odeio pagar imposto. Mas a gente não pode decidir investir em renda fixa, ações, fundos imobiliários, ETFs ou qualquer outra coisa olhando um critério só, de forma isolada.

Antes mesmo de olhar a isenção, é preciso olhar alguns critérios dentro da LCA pra ter certeza de que, primeiro, o seu dinheiro vai estar protegido e, segundo, ele vai render o que você espera. Caso contrário, deixa de ser investimento e vira aposta: uma expectativa de algo futuro que talvez nem se concretize.

Minimamente, são três perguntas:

  1. Quem é o emissor dessa LCA? Ele é robusto, confiável?
  2. Eu posso sacar esse dinheiro antes do vencimento, se precisar?
  3. Quanto essa LCA realmente vai me pagar no final de todo o período investido?

Existem pontos decisórios antes de olhar só pra isenção.

O que a MP 1.303 mostrou sobre a isenção

Pra você entender por que a isenção é um fator importante, mas secundário, vale relembrar o que aconteceu em 2025 com a Medida Provisória 1.303.

O autor da MP queria acabar totalmente com a isenção das LCIs e LCAs. Depois de tomar muita pancada, recuou: “tudo bem, não vamos tirar toda a isenção, vamos cobrar 7,5% de imposto de renda sobre LCI e LCA”. O mercado passou meses discutindo como calcular, ajustar e continuar considerando LCI e LCA nas estratégias. Em outubro de 2025, o assunto simplesmente morreu, e a medida provisória caducou no Senado sem ser votada.

Você percebeu o padrão? Mesmo sendo isento de imposto de renda, o produto não mudou: não mudou o emissor, não mudou a carência e não mudou o jeito de encaixar esse investimento na sua carteira. Se a isenção fosse algo tão definitivo na LCA, o produto teria mudado alguma coisinha, não acha?

Guarde isto pro texto todo: no GDTD eu ensino meus alunos que dizer “é isento” não significa que é o melhor investimento pra você.

O que é LCA?

LCA significa Letra de Crédito do Agronegócio. É uma “caixinha” que existe dentro dos bancos, em que o valor captado precisa ser direcionado pro agro.

Quem pode emitir LCA? Apenas bancos. Os bancos emitem a LCA, e ela chega até você pela sua corretora.

Perceba o que isso significa. Quando você abre a lista de produtos da corretora, encontra uma LCA, compra e coloca na carteira, o que você está fazendo, na verdade, é comprar um produto emitido por um banco. Esse banco recebe o nome de emissor. Guarde esse nome, porque ele é muito importante.

Na prática, o emissor é quem te deve. Se você compra pelo BTG ou por qualquer outra corretora, precisa avaliar a saúde financeira do banco que emitiu a LCA. Senão, pode estar comprando gato por lebre.

Por que o banco gosta tanto de te oferecer LCA?

No Brasil, tudo começa com uma canetada. Em 30 de dezembro de 2004 foi criada a Lei 11.076, que trata de vários assuntos, entre eles a LCA (Letra de Crédito do Agronegócio) e o irmão gêmeo dela, o CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio), que não funciona do jeito que expliquei aqui.

Por que eu digo que no Brasil tudo é canetada? Porque, por meio dessa lei, os bancos passaram a ser obrigados a destinar parte da captação ao agronegócio. Então, quando o gerente te recebe com um sorriso e um cafezinho dizendo “eu tenho uma LCA de 80% do CDI”, não é porque ele é seu amigo. (E 80% do CDI, você já sabe, dependendo da situação, não é bom negócio.) É porque ele tem uma meta a cumprir: captar dinheiro suficiente pra essa caixinha chamada LCA que existe dentro do banco.

E por que o governo isenta esse crédito? Pra que quem precisa dele lá na ponta, o produtor rural que está na roça trabalhando, tenha um empréstimo com taxa bem menor do que teria se o banco captasse via CDB e emprestasse mais caro. É por isso que a LCA é isenta: ela oferece crédito mais barato pro produtor rural.

Por que a taxa da LCA muda de banco pra banco e de mês pra mês

Como já mostrei em outros vídeos, a gente faz um gráfico, e nele olha o seguinte: se o estoque de LCA que o banco tem naquele momento está muito baixo e ainda não entrou dinheiro suficiente pra ele cumprir a determinação legal, ele precisa oferecer taxas cada vez maiores. Se o dinheiro destinado às LCAs já está dentro do que ele espera, ele diminui as taxas oferecidas.

É por isso que de vez em quando você encontra uma LCA a 87% do CDI pra 12 meses (às vezes um pouquinho mais), e às vezes encontra a 82% do CDI, ou até menos, dependendo de o banco já ter cumprido a missão de destinar crédito pro agronegócio.

Então não é sacanagem do gerente. Ele está te oferecendo uma coisa que é do interesse do banco, porque a legislação manda o banco direcionar uma parte pro agronegócio. É como Milton Friedman sempre brincava: toda vez que o governo faz alguma coisa com boa intenção, a chance de criar alguma distorção em algo que já funcionava é muito grande.

Risco de crédito: o que checar no banco antes de comprar a LCA

Agora que você sabe como a LCA funciona, vamos ao que você precisa checar pra saber se a LCA que está na sua mão tem qualidade.

Se o emissor da LCA é um banco, a gente já sabe de antemão que o investimento é garantido pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos), justamente porque quem emitiu foi um banco. Mas, pra saber se essa LCA tem qualidade, o primeiro ponto é o Índice de Basileia.

1. Índice de Basileia

Quem foi meu aluno de segurança na universidade está lembrando agora quando eu falava de Basileia. O Acordo de Basileia é uma norma mundial criada pra garantir que os bancos sigam regras mínimas, e com isso a gente tenha segurança no sistema financeiro mundial. Ela diz que os bancos precisam ter um colchão de segurança pra caso aconteça algum imprevisto, como uma inadimplência muito alta, em que os clientes não paguem tudo o que devem.

A Basileia manda ter um colchão de 10,5%. A média brasileira fica em torno de 15%.

O que você precisa observar: quanto mais próximo de 10,5% estiver o colchão do banco, mais arriscada é a operação que você está fazendo com a LCA. Quanto maior o índice, melhor. Quanto menor, mais atenção.

2. Rating

A segunda coisa é o rating: a nota que o emissor recebe de algumas instituições (as agências de classificação de risco). Basta pesquisar no Google “rating” seguido do nome do banco, e você encontra a última nota de uma dessas agências. Isso te dá um certo grau de certeza e segurança.

3. Balanço do banco

A terceira coisa que você deveria olhar é o balanço do banco. “Ju, peraí, pra comprar uma LCA vou ter que olhar o balanço do banco?”

Olha, quando amigos próximos do meu círculo de confiança vieram me trazer informações do Banco Master, do Digimais, até do Will Bank, bancos oferecendo mais de 100% do CDI, eu avisei: “cara, isso tá estranho”.

A mecânica que eu uso: olho o balanço do banco pra saber se posso pegar o CDB dele, a LCI ou a LCA dele. Eu sei que o produto é garantido pelo FGC. Mas em algum momento essa regra vai precisar mudar, porque a quantidade de dinheiro que circula no sistema financeiro hoje é muito maior que a capacidade de pagamento do FGC. Já já eu explico o FGC em detalhes.

Se você observar esses três pontos (Basileia, rating e uma olhada no balanço), dificilmente vai cair numa armadilha no formato Master ou Digimais.

Como funciona o FGC (e o que ninguém conta sobre ele)

Vamos tirar o primeiro mito. O FGC é uma instituição privada criada pelos próprios bancos pra dar uma sensação de segurança maior sobre o sistema financeiro como um todo. Ou seja: o Fundo Garantidor de Créditos foi criado pelos bancos pra dizer pra nós que investir nos bancos é seguro. Acho que você entendeu a nuance dessa frase.

O segundo ponto: o FGC cobre até R$ 250 mil por CPF (ou por CNPJ, se você investe pela empresa). Só que esses R$ 250 mil são protegidos por conglomerado financeiro.

Um exemplo do que isso significa: se você tem uma conta num banco digital e também uma conta num banco mais tradicional, como o Itaú, e tem LCA em ambos, e os dois pertencem ao mesmo conglomerado, é preciso somar tudo. O conjunto total vira o teto dos R$ 250 mil. Ou seja: some todas as instituições em que você tem dinheiro dentro daquele conglomerado financeiro.

A dica da conta separada

Essa dica eu passo pros meus alunos do GDTD: se você e sua esposa (ou você e seu esposo) investem por uma conta conjunta e querem a maior cobertura possível do FGC, separem as contas. Como a cobertura é por CPF, um investe até R$ 250 mil num instrumento e o outro investe até R$ 250 mil em outro. A cobertura no mesmo conglomerado passa a ser de R$ 500 mil, sendo R$ 250 mil de cada CPF.

O FGC paga, mas não é automático e a rentabilidade para

Preciso ser bem honesto com você nesse ponto, igual sou em todos os vídeos: o FGC paga direitinho. Nunca teve, na história do Brasil, um calote por parte do FGC. O problema é o tempo. Depende de quanto demora pra instituição liquidada entregar a lista de todos os credores, pra o FGC formar a fila.

E tem mais: não cai automaticamente na sua conta. Você precisa baixar o aplicativo do FGC e pedir pra ser ressarcido. Entre todo esse processo, pode levar de poucos dias (dependendo da agilidade da instituição liquidada) até alguns meses. No caso recente do Banco Master, demorou dois meses.

Eu tive um aluno que veio me dizer que tinha investimento no Master e estava esperando receber havia seis meses. Eu falei: “cara, mas já pagou todo mundo, faz dois meses”. Ele: “como assim?”. Eu: “você baixou o aplicativo do FGC e pediu o resgate?”. Ele: “não”. “Então faz agora, porque isso não é automático.”

Perceba a dificuldade de ficar com o dinheiro parado. Porque, enquanto você está na fila de restituição do FGC, a partir do momento em que é decretada a liquidação da instituição, a rentabilidade para de correr.

Uma decisão de investimento não é algo trivial. E por isso eu preciso te explicar outra palavrinha: carência. Ela afeta a liquidez.

Liquidez e carência: quanto tempo o seu dinheiro fica preso

O que é liquidez? É a possibilidade de transformar qualquer coisa que você tenha nas mãos em dinheiro. Coisas facilmente trocadas por dinheiro têm alta liquidez. Coisas que demoram pra virar dinheiro têm baixa liquidez.

Se você tem dinheiro na mão, é a maior liquidez possível: você troca por coisas na hora que quiser. Se você tem um imóvel, precisa colocar à venda, negociar, chegar no valor final, e só depois ele vira dinheiro, e só depois vira as coisas que você quer. Cada instrumento tem a sua característica de liquidez, intrínseca a ele.

E a liquidez traz a carência. Como funciona?

A Resolução CMN 5.215, de 2025 (CMN é o Conselho Monetário Nacional) definiu o seguinte:

  • LCA pós-fixada e pré-fixada: a carência mínima passou a ser de 6 meses (antes era 9 meses).
  • LCA atrelada à inflação (IPCA+): passou para 12 meses.

Na prática, se você precisar do dinheiro que colocou numa LCA pós ou pré-fixada, não pode tirar antes de 6 meses. Se colocou numa LCA IPCA+, vai ter que permanecer 12 meses nesse investimento.

Então você já percebeu: quando eu digo que a isenção é apenas um dos critérios pra decidir se o investimento vale a pena, provavelmente você já está convencido. Mas tem outro fator tão importante quanto: a marcação a mercado.

Marcação a mercado: o risco de travar uma taxa

O nome é complicado, mas o conceito não é. (No mercado, chamam de “MaM”.) Vou explicar de um jeito que fica nítido na cabeça.

Por que isso importa? Porque a renda fixa tem três formas de remuneração: pós-fixado, pré-fixado e IPCA+ (que corrige pela inflação). As três sofrem com a marcação a mercado, mas o pós-fixado sofre muito menos. O pré-fixado e o IPCA+ sofrem bastante, justamente por causa do que vem agora.

Imagine um gráfico. Em vermelho, a taxa Selic, a taxa básica de juros da economia. No eixo vertical, 5%, 10%, 15%. No eixo horizontal, ano 1, ano 2, ano 3 e assim por diante.

  • No ano 1, a Selic está em 5% e você consegue pegar uma LCA pré-fixada (ou IPCA+, não importa, o conceito vale pros dois) a 7,5%. Você está ganhando a diferença entre uma e outra. E justamente por você estar ganhando essa diferença sobre a taxa básica, o mercado está disposto a pagar mais pelo seu título.
  • No ano 2, a Selic sobe pra 10%, e o seu título permaneceu em 7,5%. Agora ele está abaixo da taxa básica de juros. É nesse momento que a marcação a mercado negativa entra: se você quiser vender o título (desde que tenha liquidez pra isso), vai ter que abrir mão de rentabilidade, porque a taxa básica está maior do que o investimento que você contratou.

Cada vez que a taxa básica sobe, o seu título vale menos, porque ele está fixado, ao longo de todo o período, na taxa que você pactuou na contratação.

No pedaço do gráfico em que o título estava acima da Selic, você ganhou da marcação a mercado: se quisesse vender, receberia mais do que pagou. No pedaço em que a Selic passou do seu título, você perdeu dinheiro se precisasse vender.

“Ju, mas cheguei no ano 3. E aí, o que foi combinado com o banco vai ser pago, independente do que aconteceu com a taxa básica no meio do caminho?” Sim. Vai ser cumprido pela instituição emissora, e o pagamento vai ocorrer exatamente quando foi combinado lá no começo: pré-fixado ou, no caso do IPCA+, o IPCA mais a taxa combinada.

Como saber se a taxa da LCA é boa: compare com o Tesouro Direto

Tudo o que você viu até aqui (rating, emissor, Basileia) também vale pra CDB, LCI e RDB, e o guia completo de CDB, LCI, LCA e RDB mostra cada um deles. Por isso essa aula é tão completa.

Agora eu vou mostrar como ver se o percentual oferecido na LCA é bom ou não. Vou comparar as três modalidades (pós-fixado, pré-fixado e IPCA+) com ativos equivalentes do Tesouro Nacional, pra ver qual valeria mais a pena. (Se quiser ver outro caso, a comparação LCA contra Tesouro Direto mostra a conta de outro jeito.)

Por que eu gosto de usar o Tesouro Direto como base de comparação? Porque o mínimo que a gente consegue pegar de rentabilidade, com a maior segurança possível (já que é emitido pelo Tesouro Nacional), está ali. É o piso.

Atenção: as taxas abaixo são as do momento da gravação do vídeo, usadas como exemplo. Taxa muda todo dia. Refaça a conta com a taxa que você tem na tela.

Os exemplos abaixo usam o simulador de investimentos do Meia Ficha, gratuito, com R$ 10 mil investidos por 2 anos, sem aporte mensal. O Tesouro paga imposto de renda pela tabela regressiva, que começa em 22,5% e termina em 15%; explico essa tabela em outro conteúdo aqui do canal. A LCA é isenta.

LCA pós-fixada x Tesouro Selic

Na gravação, a Selic estava em 13,75% ao ano, dada a última reunião do Copom. O Tesouro Selic 2031 pagava cerca de 13,65% ao ano (100% do CDI, mais um pequeno spread de 0,07% que eu deixei de fora da conta, pra você entender a lógica no “raiz”).

Vamos supor que você encontrou uma LCA de 85% do CDI para 2 anos.

  • Tesouro Selic: R$ 10.000 por 2 anos, pagando imposto de renda pela tabela regressiva → R$ 12.340 (ganho líquido de R$ 2.340).
  • LCA a 85% do CDI, isenta: R$ 12.454 (ganho líquido de R$ 2.454).

Nesse caso, com o dinheiro podendo ficar até dois anos travado (o prazo de vencimento da LCA), isenção de imposto e remuneração de pelo menos 85% do CDI, a LCA valeria mais a pena. E aqui vai um truque: pelo menos 85% do CDI. Abaixo disso, a chance de pegar uma rentabilidade ruim é muito grande. Eu nem coloquei o spread do Tesouro Selic na conta, nem a taxa de custódia de 0,20% ao ano da B3 (que incide porque o Tesouro Selic passou de R$ 10 mil); é só pra você entender como fazer a sua simulação.

O mesmo raciocínio serve pra um CDB de 103% ou 105% do CDI (veja a comparação entre LCI a 90% do CDI e CDB a 103% do CDI): simule de novo, colocando um como tributável e a LCA como isenta. Quanto maior o prazo, menor o imposto no CDB e no Tesouro Selic (começa em 22,5% e termina em 15%), enquanto a LCA é isenta o tempo todo. Essa é a grande vantagem da LCA, desde que a taxa oferecida faça sentido.

LCA pré-fixada x Tesouro Prefixado

Na gravação, o Tesouro Prefixado estava pagando 13,79% ao ano (um pouco acima da Selic, que estava em 13,75%). Pro vencimento de 2032, pagava 14,10%. Quanto mais longo o prazo, maior a taxa precisa ser pra ser atrativa.

Vamos simular dois anos de novo, e supor que você encontrou uma LCA pré de 11,25% ao ano.

  • Tesouro Prefixado: R$ 10.000 por 2 anos → R$ 12.366.
  • LCA pré a 11,25%, isenta: R$ 12.376.

A LCA pré-fixada, com taxa de 11,25% ao ano, também ganhou. Agora você entendeu a mecânica da isenção.

LCA IPCA+ x Tesouro IPCA+

A LCA IPCA+ tem um componente que confunde: a inflação. Vou te ensinar a tirar isso da cabeça.

Suponha que o IPCA, no primeiro ano, estava bem controladinho, em 4,5%. No segundo ano caiu pra 3%. No terceiro ano deu uma descontrolada e subiu pra 5%, mais ou menos (tudo hipotético). Você combinou de receber IPCA mais uma taxa fixa, digamos IPCA + 7%.

O que acontece? A sua taxa final acompanha o IPCA: se o IPCA cai, a taxa final cai; se sobe, a taxa final sobe. Mas a diferença entre as duas linhas é sempre 7%, a taxa fixa que você combinou.

Por que eu estou explicando assim? Porque, se você chegou à conclusão de que esse pedacinho é sempre 7%, você não precisa calcular o IPCA pra comparar com um Tesouro IPCA+ ou um CDB IPCA+. Você só olha a taxa fixa. Se a sua LCA paga pelo menos 85% da taxa fixa de um CDB ou de um Tesouro IPCA+, num prazo superior a dois anos, cai no mesmo truque de antes: essa LCA de 85% provavelmente vai bater os outros que pagam 100% da taxa.

Ficou claro? Se não ficou, fala pra mim nos comentários que eu tento desenhar de outro jeito.

Os 5 erros mais comuns com LCA

Esses são os cinco erros que eu mais encontrei com meus alunos do GDTD e com clientes da minha consultoria. Quando alguém me fala que tem LCA, eu começo a perguntar como foi estruturado e como chegou à decisão de investir. Praticamente todos cometeram estes cinco, e eu te mostro agora, porque conhecimento liberta.

Erro 1: “É isento, logo rende mais do que qualquer outro investimento”

Não. Você já viu que precisa calcular quanto tempo pretende ficar investido, porque é em cima do prazo que entra o imposto de renda regressivo, que começa em 22,5% e vai até 15%. O simples fato de ser isento não significa que a sua rentabilidade vai ser melhor do que pagar imposto num CDB ou num Tesouro Selic, no caso dos pós-fixados.

Erro 2: “Tem FGC, então é 100% protegido”

“Então posso colocar quanto dinheiro eu quiser?” Eu te mostrei que existe um teto de R$ 250 mil e te ensinei um truque pra aumentar esse teto no caso de casal investidor. E lembre-se: protegido pelo FGC? Sim. O FGC paga direitinho? Paga. Já deu calote? Não. Sempre existe uma primeira vez, e eu não estou dizendo que é impossível, apesar de pouco provável. Mas o seu dinheiro perde a rentabilidade a partir do momento em que é decretada a liquidação da instituição financeira. Dependendo do emissor que você pegou, não compensa correr o risco, porque no final você vai receber o mesmo valor.

Erro 3: não olhar quem é o emissor

Praticamente todo emissor precisa ser avaliado, porque você não tem como saber de antemão se ele é bom ou não. Se você compra de um emissor ruim e ele quebra no meio do caminho, você entra na fila do FGC (o erro 2) e perde dinheiro.

Erro 4: não cruzar com os seus objetivos de vida

Mesmo num emissor bom, se o seu objetivo era usar esse dinheiro em um ano e a data de vencimento da LCA é daqui a três anos, você não tem como resgatar antes do prazo. A maior parte das LCAs só paga no vencimento. Então cruze com o prazo em que você quer usar o dinheiro.

Eu vejo muito aluno que ainda não conhecia LCA assistir à aula no GDTD e falar: “rapaz, estou com dinheiro parado lá e preciso dele”. Isso é liquidez. Se em cima eu tratei do risco de crédito (emissor correto, boa nota de rating, colchão de Basileia), a liquidez também importa: quando você vai conseguir pegar esse dinheiro na mão? Se você não sabe, a sua situação complica bastante.

Erro 5: travar taxas por períodos muito longos

Como mostrei na marcação a mercado, às vezes a gente pensa “travei uma taxa, estou protegido, vou receber esse valor no final”. De certa forma você está certo, mas a economia muda o tempo todo. Se a economia passar por um momento de estresse e a taxa básica de juros subir, e você travou a sua taxa numa taxa muito baixa, vai ter problema com marcação a mercado e deságio. E, se precisar resgatar (desde que seja possível resgatar antes do prazo), provavelmente vai amargar perdas.

Afinal, devo investir em LCA?

Minha opinião mais sincera: LCA é um ótimo instrumento de investimento, principalmente se você consegue taxas atrativas (percentuais do CDI muito bons), com um emissor robusto e confiável, com nota boa de rating e um bom colchão de Basileia, e com balanços em linha nos últimos anos.

Mas perceba: ser um bom investimento não significa necessariamente que é um investimento pra você. Isso depende de três coisas: a sua situação financeira, os seus objetivos de vida e o conhecimento que você tem. Pra te ajudar a decidir, faça quatro perguntas, em ordem:

  1. Esse dinheiro é um dinheiro que eu vou precisar usar, ou que pode virar uma emergência nos próximos 1 ou 2 anos (dependendo do prazo de vencimento da LCA)? Se a resposta for sim, pare aqui. Você não pode colocar esse dinheiro na LCA. Procure um investimento com liquidez diária ou, no mínimo, que permita resgatar antes do vencimento.
  2. Quanto eu estou disposto a colocar nessa LCA? O valor, com o rendimento, ultrapassa o teto de R$ 250 mil do FGC naquele conglomerado? O emissor é de qualidade? Se o emissor é bom e o limite não ultrapassa a proteção do FGC, siga pra próxima pergunta.
  3. Eu converti as taxas e simulei (por exemplo, no simulador do Meia Ficha) e vi que vale a pena pra aquele prazo? A rentabilidade líquida, sempre a líquida, vai ser maior que a de outros investimentos que eu tenho como oportunidade naquele momento? Aqui nasce o custo de oportunidade: aquilo a que você abre mão pra obter o que quer.
  4. O prazo de vencimento da LCA está dentro do meu objetivo? Pra quando eu vou usar esse dinheiro?

Se você passou pelas quatro perguntas e todas as respostas foram sim (“eu sei o que estou fazendo, sei que a taxa que peguei foi boa, sei que o emissor é bom, sei que estou coberto pelo FGC”), então você pode investir, porque está de acordo com os seus objetivos e com o seu perfil de risco.

Provavelmente você chegou aqui achando que seria mais um conteúdo bobinho de LCA, e aprendeu risco de crédito, marcação a mercado, risco de liquidez, carência e as leis que fizeram a LCA existir. Você está saindo daqui um investidor muito melhor do que quando entrou.

Se faltou alguma coisa que eu esqueci de mencionar e era importante pra você, deixa nos comentários do vídeo. Às vezes a sua dúvida é a de mais mil pessoas que não perguntaram, e aí eu posso fazer um segundo vídeo explicando exatamente o que você precisa. O objetivo do canal é te ajudar a se transformar num investidor cada vez melhor.

Que Deus abençoe os seus investimentos e a sua família, e eu te vejo na próxima aula.

Perguntas frequentes

O que é LCA?

LCA é a Letra de Crédito do Agronegócio, um título de renda fixa emitido por bancos, criado pela Lei 11.076/2004. O dinheiro captado precisa ser direcionado ao agronegócio. Quem te deve é o banco emissor, não a corretora que vendeu o papel.

LCA vale a pena?

Depende do emissor, da carência e da rentabilidade líquida comparada com a de outros investimentos pro mesmo prazo. A isenção de imposto de renda é só um dos critérios. Como regra de bolso, para um prazo de dois anos, abaixo de 85% do CDI a chance de uma rentabilidade ruim é muito grande.

A LCA é isenta de imposto de renda?

Sim, pra pessoa física. Em 2025 a MP 1.303 tentou tributar LCI e LCA, mas caducou no Senado sem ser votada, e a isenção continua valendo. Isenção não significa mais rendimento: é só uma variável da conta.

Qual é a carência da LCA?

Desde a Resolução CMN 5.215, de 2025, a LCA pós-fixada e pré-fixada tem carência mínima de 6 meses (antes eram 9). A LCA atrelada ao IPCA tem carência mínima de 12 meses. A maioria das LCAs só paga no vencimento.

Como funciona o FGC na LCA?

O FGC cobre até R$ 250 mil por CPF (ou CNPJ), por conglomerado financeiro. O pagamento não é automático: você precisa pedir o ressarcimento pelo aplicativo do FGC, e o processo pode levar de poucos dias a alguns meses. A partir da liquidação da instituição, o dinheiro para de render.

O que é marcação a mercado?

É o preço que o seu título teria se você precisasse vendê-lo hoje. Quando a taxa básica de juros sobe, um título de taxa fixa (pré-fixado ou IPCA+) vale menos; quando cai, vale mais. O pós-fixado sofre muito menos com isso. No vencimento, o emissor paga o que foi combinado.

Quais são os principais erros com LCA?

Achar que isento rende mais que qualquer outro investimento, achar que o FGC protege 100% de qualquer valor, não olhar o emissor, não cruzar o prazo com os seus objetivos de vida e travar taxas por períodos muito longos.


Este artigo é conteúdo de educação financeira. Não constitui recomendação personalizada de investimento, nem promessa ou garantia de rentabilidade. As taxas citadas são exemplos do momento da gravação do vídeo. Taxas, alíquotas e regras mudam ao longo do tempo; confira sempre os valores atualizados nas fontes oficiais e na sua corretora antes de qualquer decisão.

Prof. Junior Jú

Junior Ju

Escada GDTD

Aprender renda fixa de verdade — do zero, no seu ritmo, sem se sentir perdido no caminho.

Eu te pego sabendo nada e te solto investindo sozinho — um degrau de cada vez, na ordem que ninguém nunca te deu.

Está gostando dos nossos artigos? Compartilhe clicando nos botões abaixo…

Logotipo do Meia Ficha em Cores Preta e Fundo Branco

Junte-se ao MEIA FICHA

GRÁTIS: Cadastre-se para acessar todos os artigos!

MEIA FICHA
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.