Reserva de Emergência: Quanto Guardar e Onde Guardar

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Um amigo de infância me procurou pedindo ajuda. Ele é profissional autônomo, presta serviço aqui na cidade, e me disse: “Ju, estou passando por um problema de saúde e vou ter que me ausentar do trabalho por três meses”. Eu perguntei que ajuda seria essa, e ele respondeu: “eu já tenho algum dinheiro investido e sei como você trabalha com isso. Você podia me orientar sobre qual desses instrumentos eu posso vender?”

No momento em que ele me mostrou a carteira, parecia que estava fazendo tudo direitinho: um terço em renda fixa, um terço em fundos imobiliários e um terço em ações. Mas, quando desci no detalhe, ele tinha muito pré-fixado e muito IPCA+, e as ações e os fundos que ele tinha não estavam passando por um bom momento na bolsa.

Ou seja, ele tinha uma quantidade significativa de ativos, mas os ativos não estavam no melhor momento pra ele transformar em dinheiro. Esse é o motivo deste artigo: te explicar como montar a sua carteira de forma adequada, separando parte dela pra ser a sua reserva de emergência, de acordo com o seu perfil, porque cada perfil tem a sua necessidade.

Resumo rápido

  • Quanto guardar: servidor público, cerca de 3 meses do custo de vida; CLT, pelo menos 6; autônomo e empresário, 12.
  • A conta é sobre o custo de vida, só o que é fundamental pra sobreviver sem renda, e não sobre o salário.
  • Onde guardar: Tesouro Selic ou CDB de grande banco com liquidez diária, porque na reserva o que importa é liquidez, não o maior retorno.
  • No caso do amigo autônomo: custo de vida de R$ 3.150 por mês, reserva de R$ 37.800 (12 meses), e a simulação mostra 5 anos aportando R$ 500 ou 3 anos aportando R$ 1.000 por mês.

Assista à aula completa

No vídeo eu mostro a tabela do custo de vida e as simulações na tela. Aqui no artigo está o passo a passo escrito.

O que é reserva de emergência (e por que o nome atrapalha)

Toda vez que eu falo “reserva de emergência”, vejo alguém bocejar e pensar: “ih, eu já sei, é aquele dinheiro que eu deixo parado na poupança, sem render nada, pra usar um dia se precisar”. Mas, se a gente apenas trocar o nome de reserva de emergência por reserva de liquidez, passa a fazer sentido.

Reserva de emergência é um dinheiro que você investe no instrumento correto e deixa ali uma quantidade X de meses do seu custo de vida (repare: não do salário) pra usar exatamente se ocorrer algum problema na sua vida. Por exemplo: você ficar doente, como o meu amigo autônomo; você perder o trabalho e precisar usar esse dinheiro enquanto se realoca; e assim por diante.

O mercado chama isso de reserva de emergência, mas ela não precisa ser algo que você só usa em emergência. E é aqui que talvez exista um erro de conceito, que faz a gente colocar o dinheiro no lugar errado. Na reserva de emergência, a gente não está buscando necessariamente o maior retorno. A gente está buscando liquidez: um dinheiro que você consegue acessar rapidamente quando precisa, sem causar nenhum prejuízo. Ou seja, não pode ser um instrumento que você vai vender e perder dinheiro na transação. Por isso ele precisa estar alocado no investimento correto.

E a reserva de emergência não é igual pra todo mundo. Eu tenho uma necessidade e você tem outra. Um servidor público, um autônomo, um empresário, um médico que vive de plantões: são perfis diferentes, que às vezes até ganham dinheiro de forma diferente, mas que têm necessidades de reserva diferentes uma da outra.

Passo 1: mapear o seu custo de vida

Pra saber quantos meses de reserva você precisa, a primeira coisa é mapear todo o custo de vida que você tem. E, quando eu falo em mapear, falo do que realmente é fundamental pra manter você ou a sua família durante o período em que você ficar sem renda.

Vou usar o caso do meu amigo. Ele tem um salário de R$ 5 mil e mais uma renda extra de R$ 500. Nos custos fixos dele entram água (R$ 100 por mês), aluguel (R$ 900), transporte (R$ 300), energia elétrica (R$ 200) e internet (R$ 100).

Repare no que ficou de fora da conta: ele não mora em prédio, então não paga condomínio. Deixamos de fora Disney Plus, Netflix, assinatura de YouTube, TV por assinatura, parcela de carro ou moto (que não é o caso dele), plano de saúde (a empresa paga) e seguro do carro. Ou seja, nos custos fixos eu orientei meu amigo a colocar apenas o que ele realmente precisa pra sobreviver.

Nos custos variáveis, a mesma lógica: nesse período ele não vai gastar com vestuário nem com combustível (não tem carro), e entretenimento sai da conta. Ficam farmácia, feira e supermercado: quanto ele gasta de cada um por mês.

Somando o total de custos fixos com o total de custos variáveis, você chega ao total de saídas, e é isso que você usa pra calcular a sua reserva. Você precisa montar uma tabelinha parecida com essa (eu disponibilizo uma pra meus alunos do GDTD). No caso do meu amigo, depois de preencher a tabela juntos, chegamos a algo em torno de R$ 3.150 por mês pra manter o padrão mínimo de vida (alimentação, habitação, água, luz, internet) durante o tempo em que ele precisasse ficar sem trabalhar.

Guarde esse número.

Reserva de emergência: quantos meses guardar

Com o seu custo de vida em mãos, cada perfil tem uma recomendação:

PerfilMeses de custo de vidaPor quê
Servidor públicocerca de 3 mesesEstabilidade maior, quase uma garantia de que vai receber o salário
CLTpelo menos 6 mesesTem FGTS e seguro-desemprego em caso de demissão
Autônomo12 mesesSem FGTS nem seguro-desemprego
Empresário12 mesesSem FGTS nem seguro-desemprego, e ainda precisa cuidar da liquidez da empresa

Empresário: você precisa guardar pelo menos 12 meses do seu custo de vida. Faz o mesmo exercício: soma custos fixos e variáveis, chega ao custo de vida e multiplica por 12. Mas empresário tem uma particularidade: se tem funcionários e um CNPJ, precisa prever também a liquidez da empresa. Então algo em torno de 12 meses também na conta do CNPJ seria um bom resultado: reserva na vida pessoal, no CPF, e na empresa, no CNPJ.

Autônomo (o caso do meu amigo): a mesma coisa, 12 meses. Ele precisa multiplicar por 12 os R$ 3.150 que descobriu serem o necessário pro dia a dia: R$ 37.800 na reserva de liquidez. É um valor bem expressivo pra quem ganha o que ele ganha e consegue poupar por mês. Já já eu mostro como ele vai alcançar esse valor.

Servidor público: como tem estabilidade maior, o recomendado é ter aproximadamente 3 meses.

CLT: em caso de demissão, ele tem acesso ao FGTS e ao seguro-desemprego, dois valores a receber a mais que o empresário e o autônomo não têm. Por isso, no caso do CLT, o recomendado é ter pelo menos 6 meses.

Quanto tempo leva pra montar a reserva (a simulação)

Vou mostrar o planejamento do meu amigo no simulador do Meia Ficha. Na primeira suposição, ele faz um aporte mensal de R$ 500, com uma taxa média de juros de 10% ao ano num instrumento de alta liquidez (um valor até considerado bom). Mais adiante eu falo quais instrumentos são os mais recomendados.

  • No primeiro ano, usando o valor bruto, ele chegaria a R$ 6.270. Muito abaixo dos R$ 37.800 de que precisa. Como ele não consegue aumentar nem a taxa nem o aporte mensal, a gente aumenta o prazo.
  • Em 5 anos, ele chega a um total bruto de R$ 38.280, já cobrindo os R$ 37.800 da reserva.

É nesse ponto que muita gente desiste de investir. A pessoa olha e pensa: “cara, vou ficar cinco anos da minha vida só juntando dinheiro pra fazer uma reserva de 12 meses do meu custo de vida? Não vai dar nada isso aí”. Só que pensa assim: se ele continuar investindo e persistir por mais cinco anos, completando dez, a reserva dele quase triplica. Quando você olha a curva, ela vai se descolando do valor que ele foi aportando ao longo do tempo, formando uma barriguinha, que pra nós é uma curva exponencial.

Agora, o que aconteceria se ele conseguisse investir R$ 1.000 por mês, na mesma taxa de 10% ao ano? Ele precisaria de 3 anos pra chegar a R$ 41.500. A partir daí, depois dos 3 anos, ele poderia começar a diversificar mais o investimento, colocando parte do dinheiro em ações, fundos imobiliários, IPCA+, pré-fixado, o que ele quiser.

Perceba: o planejamento na hora de construir a sua carteira faz muita diferença pra você estar mais seguro ou mais exposto a determinados riscos.

Onde guardar a reserva de emergência

No caso do meu amigo, antes ele tinha na renda fixa praticamente dois terços aportados em IPCA+ e pré-fixado, e apenas um terço em Tesouro Selic e CDBs de bancões. A gente montou um planejamento pra que, nos próximos aportes, ele aumente significativamente a parte pós-fixada da renda fixa, até chegar aos 12 meses de reserva.

Duas opções:

  • Tesouro Selic: garantia do governo federal, funciona todo dia útil, e você consegue pedir o resgate sempre que precisar.
  • CDBs de grandes bancos com liquidez diária: costumam pagar aproximadamente 100% do CDI, o equivalente ao Tesouro Selic.

Se quiser entender melhor a diferença entre as duas, tem o artigo Tesouro Reserva ou Tesouro Selic aqui no site.

Ele vai aumentando gradativamente essa parte da reserva, até chegar no valor de que precisa: R$ 37.800.

Por sorte, ele estava bem no começo da estrutura que estava montando. Depois virou aluno do GDTD e agora está aprendendo a construir isso passo a passo, distribuindo os ativos, principalmente os de renda fixa, pra não ter muita exposição a IPCA+ e pré-fixado logo no começo da montagem da carteira. Com o tempo, ele pode migrar pra uma alocação com mais renda variável. A recomendação no GDTD é começar com 80% ou 90% em renda fixa e 10% ou 20% em renda variável, justamente pra não cair na situação de precisar vender ações e fundos imobiliários no momento mais desfavorável, que é quando eles estão com um preço abaixo do que realmente valem.

Com esse planejamento, ele já está construindo a reserva e vai passar os próximos perrengues da vida (a vida sempre traz um perrengue novo, não tem jeito) com um pouco mais de tranquilidade, pelo menos do lado financeiro.

Sem organização, não existe reserva

Eu preciso deixar claro: ele só conseguiu fazer todo esse planejamento porque a gente sentou junto e organizou os valores que ele gasta por mês com cada coisa e aquilo a que ele pode abrir mão durante pelo menos um ano, até ter capacidade de aportar mais e construir a reserva mais rápido. Sem essa organização, sem essa planilha, ele provavelmente ficaria perdido, porque olhar só o extrato do cartão, ou pra onde o dinheiro está indo, é muito complicado.

Por isso eu brinco com os alunos do GDTD que o primeiro passo nas primeiras aulas é sentar e organizar a vida financeira. Não só o que você gasta, mas quanto você tem de custo fixo, de custo variável, suas entradas, depois organizar suas metas (às vezes é interessante ter uma liquidez um pouco maior), e ter um painel pra acompanhar o que realmente está acontecendo. Essa organização, como você viu, tem que acontecer todo mês. Você pode fazer a sua do jeito que achar mais cabível, ou conferir a PCF, a planilha de controle financeiro, pra ver se eu consigo te ajudar de alguma forma.

O que fica

Reserva de emergência é algo pra o qual você precisa se preparar estruturalmente, pra conseguir fazer do jeito adequado. E não é um investimento em que você está perdendo dinheiro: você está colocando no Tesouro Selic ou em CDBs de grandes bancos com alta liquidez, pra poder acessar o dinheiro no momento em que precisar.

E, se você já montou a sua reserva e está no próximo passo, o de investir, o artigo LCI a 90% do CDI ou CDB a 103% do CDI te ajuda a decidir se é o momento de ir pra LCI, CDB ou Tesouro.

Que Deus abençoe os seus investimentos e a sua família, e eu te vejo na próxima aula.

Perguntas frequentes

Quanto guardar de reserva de emergência?

Depende do perfil, e a conta é feita sobre o seu custo de vida (o que é fundamental pra sobreviver), não sobre o salário. Servidor público: cerca de 3 meses. CLT: pelo menos 6 meses (tem FGTS e seguro-desemprego). Autônomo e empresário: 12 meses.

Onde guardar a reserva de emergência?

Em um instrumento de liquidez, que você consiga acessar rápido sem perder dinheiro na transação: Tesouro Selic (garantia do governo federal, resgate em dia útil) ou CDB de grande banco com liquidez diária, que costuma pagar perto de 100% do CDI.

Como calcular o meu custo de vida pra reserva?

Some os custos fixos e os custos variáveis essenciais (moradia, água, luz, internet, transporte, alimentação, farmácia) e deixe de fora o que você consegue cortar durante o período sem renda (streaming, entretenimento, vestuário). O total de saídas, multiplicado pelo número de meses do seu perfil, é a sua reserva.

Reserva de emergência é a mesma coisa que reserva de liquidez?

Na prática, sim. O objetivo da reserva não é o maior retorno, é a liquidez: poder acessar o dinheiro rapidamente, quando precisar, sem perder dinheiro vendendo um ativo no momento errado.

Quanto tempo leva pra montar a reserva?

Depende do aporte. No exemplo do vídeo, com R$ 500 por mês a 10% ao ano, são cerca de 5 anos pra chegar a R$ 38.280. Com R$ 1.000 por mês, a mesma taxa chega a R$ 41.500 em 3 anos.

Posso investir em ações ou fundos imobiliários antes de ter a reserva?

O risco é ter que vender esses ativos justamente quando estiverem com preço abaixo do que valem, se você precisar do dinheiro. Por isso a recomendação do GDTD é começar com 80% ou 90% em renda fixa e só migrar pra mais renda variável depois de montada a reserva.

Este artigo é conteúdo de educação financeira. Não constitui recomendação personalizada de investimento, nem promessa ou garantia de rentabilidade. Os valores do caso do amigo são ilustrativos, e a taxa de 10% ao ano é uma suposição de simulação, não uma promessa de rentabilidade. A régua de 3 a 12 meses é convenção de mercado. Taxas e regras mudam ao longo do tempo; confira sempre os valores atualizados nas fontes oficiais antes de qualquer decisão.

Prof. Junior Jú

Junior Ju

Escada GDTD

Aprender renda fixa de verdade — do zero, no seu ritmo, sem se sentir perdido no caminho.

Eu te pego sabendo nada e te solto investindo sozinho — um degrau de cada vez, na ordem que ninguém nunca te deu.

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